quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Palavras

As palavras são “multimoduladas”, carregam reverberações de outros significados, que elas colocam em movimento, apesar de nossos melhores esforços para cerrar o significado.
(Hall, 2006, p. 41).

18 comentários:

  1. Oi Lu!!!

    Antes de mais nada, eu sei do que você está falando. Vivemos isso que a citação expõe, de uma maneira péssima.

    Mas "que toda mágoa se transforme em sabedoria" né?

    Eu não tenho reparo quanto à idéia proposta pelo Hall. Mas discordo muito da maneira como ele expõe a coisa.

    Me parece que ao atribuir às palavras a capacidade de carregar significado, de dar movimento, de possuirem modulações, Hall atribui a parte ativa da inteligência às palavras. Fica para nós humanos sermos o meio através do qual as palavras fluem e reverberam.

    Nunca!!! As palavras são vazias, são instrumentos, são puras sim - no sentido de que são destitúidas de tudo, exceto a codificação linguística dada pela cultura.

    Somos nós seres humanos que fazemos esses códigos vibrarem, ao nós nos movermos quando recebemos/enviamos esses códigos.

    E ouvir uma mesma palavra pode fazer duas pessoas diferentes se movimentarem de duas formas muito distintas. Ou fazer uma ou várias pessoas se movimentarem de diferentes maneiras, em diferentes frequências.

    Mas não é a palavra que carrega reverberação - é a pessoa que vibra ao ouvir, ao falar.

    Comunicação não é sobre a mídia, é sobre o amor que eu quero te fazer sentir.

    É por isso que considero um gravíssimo defeito meu o não considerar sempre a recepção do que digo - eu me atenho à espontaneidade, à sinceridade, ao humor, e na verdade isso não é suficiente. É bom, mas não suficiente.

    O meu objetivo não deveria ser apenas pôr pra fora o que está reverberando aqui dentro, nem dizer tudo que me é importante, nem fazer piada de tudo.

    O meu objetivo deveria ser fazer essas coisas em atenção a quem estiver escutando, respeitando seus limites, suscetibilidades, vontades, desejos.

    Mas eu não consigo tornar isso um hábito. Acabo machucando as pessoas direto. "Me desculpa ter te dito algo que vibrou errado aí?"

    É curioso que "ter tato" tem mais a ver com imaginar o outro do que em toca-lo.

    Lu, você concorda que os significados são atribuídos ativamente pelo pensador? A maneira como o Hall apresenta a coisa é horrivelmente passiva né? As palavras não são coisas cheias de movimento que temos que "cerrar" - como se fossem vivas, animais. As palavras são coisas inertes, como meias, que temos que enfiar a imaginação dentro e manipular criativamente para fazer um teatrinho pras outras crianças.

    Você vê essas coisas assim?

    Beijos!
    Rê.

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  2. Oi!

    (experiência) Te desanimaria muito dizer que é possível passarmos por coisas semelhantes ou piores?

    (que toda mágoa se transforme em sabedoria) estou te convertendo! ;)

    (palavras) Na frase de Hall também senti uma certa fragilização das pessoas diante do sentido que as palavras podem carregar. O outro lado da moeda é que serve para que não subestimemos as palavras, ou seja, que tenhamos consciência de que não é apenas falar que faz com que o sentido que queremos transmitir chegue do outro lado intacto.

    (instrumentos) Se dissermos que as palavras são vazias estamos ignorando o que elas carregam: comunicação, sentimentos, idéias... OK, palavra por palavra é vazia, mas assim como você entendeu o sentido da citação, sabe que a partir do momento em que ela está em uso, entra em contato com significados que lhe dão peso.

    Não é que a palavra em si carregue reverberação de significados. A palavra, ao entrar em contato com seu receptor, é interpretada a partir de significados anteriores que esse receptor carrega. Sendo muito diferente do que quem a proferiu quer dizer, ganha outro sentido, ou carece de explicação e detalhamento.

    Na verdade eu vi esse destaque dado pelo autor como recurso para dar dimensão à idéia. O livro em questão trata de identidades culturais. No campo da cultura muitas palavras têm significados compartilhados, carregados de idéias ligadas a um discurso cultural. Se ele focasse na pessoa e não na palavra, poderia perder a dimensão do significado público dessas palavras para jogar num campo de interpretações individuais. Seria como ignorar completamente o senso comum em nome do relativismo.

    O que pode causar incômodo é que eu importei um trecho do texto, descontextualizei e permiti que pensássemos a partir dele em um contexto particular, e não coletivo.

    (vibrações) acho que temos um bom antídoto contra vibrações desencontradas: o bom uso das palavras. Explicar, conversar, buscar entender, discutir, digerir, repetir e tudo o que permite que as vibrações se harmonizem.

    Beijos!

    Lu

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  3. Oi Lu!!

    (experiência) Não, não muito - mas é claro que é algo desagradável. Mas eu creio que enquanto for algo que podemos resolver racionalmente, não é um problema, é uma inconveniência. Creio que de maneira geral os mal-entendidos só são um problema quando eles ocorrem sistematicamente, devido a cafajestagens, manhas, neuras, etc. Não é nosso caso!

    (palavras) Você acha que em alguns casos a idéia chega do outro lado "intacta"? Não é meio pessimista essa posição sua não???

    (instrumentos) Bom, eu creio que agora que você indicou em linhas gerais o contexto da citação, podemos brincar com isso também, mas só a citação descontextualizada já dá bastante pano pra manga!

    Creio que nossas perspectivas quanto aos fenômenos da comunicação são compatíveis, mas do meu ponto de vista, não existe nada nas palavras além do código linguístico. De modo que não existe um sentido público "incorporado" nas palavras - esse sentido público é compartilhado através da cultura, através da similaridade de biografias, de vivências.

    Ou seja, creio que as pessoas que vivem numa mesma cultura, acabam tendo vibrações de frequências e amplitudes similares, quando expostas às mesmas palavras. Isso seria o sentido público das coisas. Mas a biografia tem um papel nisso, e pode tornar a 'resposta vibracional' de uma pessoa diferente daquela que é o "senso comum" de sua cultura.

    (vibrações) Concordo plenamente. A única coisa que desanima é quando alguém 'tapa os ouvidos'. Não é nosso caso :)

    Beijos!
    Rê.

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  4. Bom dia!

    (palavras) Acho possível que carregue o mesmo significado para emissor e receptor de um modo superficial, que atenda ao propósito da comunicação. Já se formos pensar em sentidos profundos de cada palavra para cada um, variam bastante.
    Pessimista por quê?

    (sentido público das palavras) você diz não existir sentido público das palavras. Estou pensando em discursos oficiais, publicitários, tradicionais. Enfim, acho melhor um exemplo: futebol como paixão nacional ou a hospitalidade dos brasileiros. Para traduzirmos esses significado, temos que acessar o senso comum. Uma identificação com o coletivo nacional nos permite compartilhar esses conceitos de modo que o significado para quem emite é parecido com o significado para quem recebe, sem precisar ser lido à luz de experiências individuais. Concorda?
    A opinião que se tem a respeito de cada um dos conceitos é mais individual.

    (vibrações) diria quando tapa os ouvidos ou a boca. A harmonização de vibrações (o que fazemos) me é muito mais interessante do que a imposição de vibrações próprias ou a pura absorção das vibrações alheias. No último caso, sempre fico com a impressão de que há preguiça de pensar, má vontade com relação ao desenvolvimento de relações humanas ou evitação da crítica, ou seja, zona de conforto.

    Beijos!
    Lu

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  5. Oi Lu!!!

    (palavras) Eu creio que é tão possível encontrar duas idéias iguais quanto é possível encontrar duas folhas iguais, duas moscas iguais, enfim, existem similaridades, coincidências, mas só existe identidade quando há abstração.

    E isso é excelente! Que não seja sequer possível que duas idéias sejam iguais, que toda palavra, ao ser ouvida, seja interpretada com um quê pessoal, que cada pessoa tenha que construir sua versão pessoal daquilo que lhe é dito, isso é excelente, é algo que me faz imaginar como cada pessoa é intrinsecamente diferente de todas as outras e que mesmo as coisas mais triviais, se vistas com outros olhos, poderiam ser beeeem diferentes! Então dizer que alguma idéia pode ser transmitida "intacta" é pessimista, pois propõe que em certos casos existe homogeneidade mental, o que é beeeem chato.

    (sentido público das palavras) Meu problema é com o que fica subentendido como "sentido" de uma palavra, seja público, seja privado. Eu não creio que o sentido seja uma coisa - como um carro - eu creio que o sentido seja um acontecimento - como uma viagem. Dessa maneira, não "existem" sentidos incorporados seja nas palavras, seja nas pessoas: os sentidos ocorrem quando se pensa em algo e só então.

    Eu concordo que quando abstraímos podemos identificar a abstração que parte daquilo que pensamos com os "motes" alardeados pela publicidade.

    (vibrações) Compreendo. E como eu creio que não é possível "pensar igualzinho", eu creio que sempre teremos subtons, diferenças de timbre, pequenas variações nessas vibrações que, mesmo quando abstratamente concordamos, efetivamente só o fazemos dando um colorido pessoal a cada idéia, palavra, sentimento.

    De modo que nossa amizade nunca será monótona (de um tom só :)

    Beijos,
    Rê.

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  6. Oi!

    (palavras) Entendi. Bom, não falo em homogeneidade, mas em uma similaridade suficiente para não comprometer a comunicação das idéias.

    (sentido público das palavras) Eu entendi seu ponto de vista, mas ainda acho que a comunicação é bem mais prática do que a consideração de interpretações individuais possa dar a entender. Será que é muita ilusão minha?

    (vibrações) sim, sim - eu não ia responder nada por você ter encerrado bem a idéia, mas depois você vem dizer que eu nunca concordo, nunca dou o braço a torcer... ;)

    Beijo

    Lu

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  7. Oi Lu!!!

    (sentido público das palavras) Não é ilusão sua. Mas eu creio que a comunicação não é algo simples, de maneira alguma - ainda que seja prático.

    Pense por exemplo em aprender a dirigir um carro. A princípio é complicado, dá nervoso, exige muita atenção e exercício. Depois de alguns anos dirigindo, fica bem mais tranquilo.

    Ora, os bebês humanos em geral aprender a engatinhar e caminhar antes de aprenderem a falar. E muito antes de aprenderem a articular as palavras de maneira complexa o suficiente para expressarem abstrações.

    Mas depois de alguns anos falando, parece até que falar é algo que nem precisamos pensar a respeito. Mas exige sim atenção, exige sim esforço mental. O caso é que a esmagadora maioria das pessoas é tão habilidosa em falar e ouvir, que nem se dá conta do esforço que faz. É normal. A gente nem sente.

    Pense por exemplo no simples ato de assobiar. Da maneira mais abstrata possível, há pouco o que se descrever: ou se assobia ou não se assobia. Mas nos níveis mais detalhados e concretos da descrição, há muito o que se dizer a respeito do aparelho respiratório, do controle nervoso da musculatura da região do pescoço, do controle cerebral da respiração, da cognição da música, da reflexão sobre a composição, da espiritualidade do sentimento que o assobio expõe.

    Então quando você ouvir outro dos muitos fiu-fius que você merece ouvir todo dia, lembre que somente num nível de abstração alto se trata de um grosseirão "dando em cima", num nível de abstração baixo se trata de um exemplar da espécie cerebralmente mais sofisticada do planeta, exercitando seu controle muscular e nervoso de maneira complexíssima, numa tentativa de atrair sua atenção, digo, seu controle nervoso dos olhos e da audição na direção dele.

    Lu, muitos assobios pra você!
    Rê.

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  8. (comunicação) Acho que essa dificuldade de comunicação fica mais evidente quando as pessoas vieram de contextos diferentes, falam línguas diferentes, foram educadas com princípios diferentes, etc. Legal ficarmos atentos ao que está em jogo e relevar conflitos tendo as diferenças mais gritantes em vista.
    Você acha que a racionalização ajuda a “passar por cima” dessas interpretações particulares?

    (assobios) você está me incentivando a prestar atenção aos assobios? Hmm.

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  9. Oi Lu!!

    (comunicação) De uma forma bem indireta, sim. Mas creio que isso não faz jus seja à racionalização, seja ao estranhamento.

    A racionalização é relevante para descrever como uma pessoa enverniza suas decisões emocionais com uma capa de palavras arranjadas logicamente.

    O estranhamento é a compreensão de que o outro possui uma arquitetura psíquica fundamentalmente diferente da "minha", e que isso precisa ser considerado ao comunicar-me com ele.

    (assobios) Preste atenção em tudo! Não desperdiçe nada... E então, escolha.

    Beijos!!
    Rê.

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  10. Oi!

    (comunicação) você acha que por trás das racionalizações está sempre uma idéia construída a partir de emoções?

    Beijo
    Lu

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  11. Oi Lu!

    Hehehe... Te conheço, mulher! Se eu disser que sim, "sempre" há uma idéia construída a partir de emoções por trás de uma racionalização, você vai me atacar com um contra-exemplo :)

    Então eu posso afirmar tautologicamente que por trás de uma racionalização há sempre uma idéia construída com ao menos um elemento não-racional.

    Mas no fundo eu creio que na maioria dos casos é isso mesmo com que você tentou me "fisgar": por trás das racionalizações estão emoções.

    Talvez possamos ir além, e afirmar que em geral essas emoções são contrárias aos valores éticos ou estéticos do sujeito, e por isso ele precisa revestir a decisão de realizá-las com um "verniz" de aparência racional, que serve para "justificar" a decisão sem fazer com que ele admita conscientemente que o motivo da decisão é aquele desejo que conflita com seus valores.

    Beijos!
    Rê.

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  12. Olá, desvendador de padrões mentais!

    Confesso que dei uma pequena hesitada ao escrever essa palavra, mas estou aprendendo a reconhecer o valor de alguns extremos!

    Vamos lá... Você fala em elementos não-racionais por trás de racionalizações. Mas será que é possível determinar quem vem antes? Sempre emoção por trás de razão? O que indica essa ordem?

    No meu entendimento, sempre (sim, sempre!) elementos racionais e emocionais se alternam e influenciam na construção de um posicionamento.

    Você pode argumentar que uma base emocional muito forte leve uma pessoa a não dar atenção a argumentos racionais. Mas mesmo fechada a razões alheias ela criará suas razões, como você mesmo apontou.

    Mas o caso é: um argumento lógico pode suscitar emoções. Uma emoção pode levar a racionalização. Cada pessoa não se depara com um de cada, mas com inúmeros, em todas as situações. Assim, podemos eleger anterioridade de algum?
    Mais que isso: existe essa palavra? :P

    Por que você afirma que em geral essas emoções são contrárias aos valores éticos ou estéticos?

    2009 beijos

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  13. Oi Lu!

    Tá questionando a existência de 'anterioridade' para um historiador? Ficou doida?? :D

    Falando sério, concordo com o que você escreveu no último comentário, mas você está falando sobre raciocínios, e não sobre racionalizações.

    A diferença entre esses dois "tipos" de pensamento é a seguinte: o raciocínio é espontâneo, enquanto que a racionalização é dirigida.

    Quando digo que o raciocínio é espontâneo, me refiro ao fato de que os raciocínios, tenham eles elementos emocionais ou não, se desenvolvem segundo a capacidade intelectual do sujeito sem ter um objetivo preestabelecido: a pessoa segue o pensamento até a conclusão que o pensamento o levar, e assim raciocina.

    Quando digo que a racionalização é dirigida, me refiro ao fato de que uma racionalização ocorre quando a pessoa tem um desejo que conflita com seus valores (sejam estes éticos ou estéticos), e então faz com que seu pensamento siga um caminho qualquer, mesmo que muito tortuoso, que respeite ao menos nominalmente seus valores, e a leve à conclusão de que deve satisfazer o seu desejo, e assim racionaliza.

    Exemplo de raciocínio: "Hmm... Fominha. Deveria comer algo."

    Exemplo de racionalização: "Hmm, doce. Estou gordo, não devia comer. Mas hoje ainda não comi doce. Um por dia pode. Ninguém é de ferro."

    Beijos,
    Rê.

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  14. Oi!

    Tentei achar definição de racionalizar e não encontrei uma luz muito clara para nossos propósitos... Mas vamos lá. Partindo dessa distinção, não podemos pensar em racionalização estratégica como sendo primordialmente lógica e não tanto emocional?
    Por exemplo: quero que minha equipe trabalhe em prol de um objetivo. Racionalizo para levar a equipe a isso. O que me levou a racionalizar não foi emocional.

    Beijos,
    Lu

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  15. Oi Lu!!

    Não creio que no seu exemplo ocorra uma racionalização, pois não há o elemento de "autoilusão".

    Se você no fundo quisesse que uma colega falhasse por se achar ameaçada por ela, você poderia ter a idéia de alocá-la a uma tarefa impossível, e como isso é contrário à sua ética, você não iria aceitar decidir isso assim, claramente na sua cabeça.

    Mas você poderia começar a imaginar mil-e-um motivos secundários para alocar a tal tarefa impossível para sua colega. Num certo momento, você começa a crer que essa decisão seria racionalmente justificada, e acaba fazendo o que queria.

    Eu creio que em geral a racionalização tem um fundo emocional, pois somente quando há algo mais forte que a nossa vontade de sermos éticos e morais é que ocorre esse fenômeno.

    Beijos!
    Rê.

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  16. Oi

    Ok, autoilusão é um aspecto diferente do que tinha em mente ao pensar em racionalização. Parece bem mais profundo, psicologicamente, do que a simples atribuição de argumentação racional a algo.

    Eu costumo chamar essa construção de argumentos em prol de algo que se sabe não verdadeiro ou não ético de sofismo. Mas parece que o sofismo é bem mais consciente e bem mais adequado ao contexto de uma discussão que se quer vencer.

    Beijos!
    Lu

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  17. Oi Lu!

    Ah, agora você parece que entendeu a maneira como eu uso essas palavras especificamente.

    Claro, eu sou o dono da verdade, então você deveria adotar completamente meu ponto de vista, mas se você não quiser fazer isso eu faço vista grossa, ok? :D

    Beijos,
    Rê.

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