sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Caminho sem volta



Usuária há alguns anos da internet, não posso negar que ela tem papel fundamental em quem sou e na pessoa que se desenvolve em mim. Mais do que a ferramenta em si, entretanto, o mais importante foram as múltiplas relações estabelecidas com pessoas.
Nessas relações tive a possibilidade de conhecer outras culturas, outras ideias e de encontrar gente que pensa mais como eu do que as pessoas do meu convívio físico. Algumas delas, importantes, passaram a fazer parte desse convívio a partir da empatia percebida pela internet.
Mas como toda relação entre pessoas, nem tudo foi flores. Se por um lado publiquei meu livro praticamente por meio virtual, também fui embromada por um projeto de antologia com péssima organização; se conheci pessoas com filosofias de vida impressionantes, também me deparei com outras que resistem a sair da mediocridade; se conheci meu companheiro, com quem hoje vivo e aprendo muita coisa boa, também conheci a ignorância humana manifesta de diversas formas.
Talvez a internet como ferramenta tenha sua parcela de culpa pelos caminhos tortuosos, afinal ela não permite aquele insight inicial, não nos fornece tantas informações a respeito das pessoas a ponto de nos permitir discernir cedo com quem estamos lidando, e podemos nos envolver em boas furadas por conta disso. Mas é essa mesma característica que me permitiu ampliar horizontes a despeito de preconceitos; e de ter conversas profundas com pessoas de outra língua, com a qual não trocaria muitas palavras cara a cara.
O que tiro disso tudo é que a internet é um bom instrumento, desde que nos mantenhamos atentos ao que ela pode permitir e cuidadosos com o que ela pode provocar; ou seja, desde que desenvolvamos nossa inteligência com relação ao tipo de relacionamento e aos sinais sociais que existem nesse meio.
Posso dizer que aprendi, que mudarei meu posicionamento de acordo com isso e que pretendo aprender muito mais nesse canal largo que se apresenta à minha frente.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ponte de Intrigas


Fuja da Ponte de Intrigas
quando a questão é evoluir.
Busque aperfeiçoamento na crítica,
evolução no conflito e amor incondicional
ao desenvolvimento do ser humano,
seja o outro
ou você mesmo;
pois enquanto a sua melhor defesa for o ataque,
você perderá oportunidades incríveis de crescer
dando socos em pingos d´água
para ver se a chuva para.

domingo, 24 de outubro de 2010

Voto por experiência

Durante a campanha eleitoral, especialmente para o segundo turno, comecei a me questionar sobre os critérios a seguir para votar. No início não queria escolher, mas para ter mais segurança na minha decisão, resolvi escrevê-las. Escrever é prática que me ajuda a refletir melhor sobre conflitos e escolhas há pelo menos 15 anos. Diante do resultado, percebi que, para mim, a neutralidade não era a escolha mais coerente.

Critérios

Não apreendo e nem conseguiria apreender todos os aspectos da vida pública, de modo que escoho de acordo com a perspectiva que me cabe. Com isso em mente, elegi dois critérios principais:

1. social: Quando pequena já acompanhava minha mãe em visitas a algumas favelas do bairro. Ficava perdida ao tentar conceber como uma família de cinco ou mais pessoas conseguia viver em um quadrado de terra cercado de madeira, cujos móveis não passavam de cama, mesa, cadeiras e uma ou outra tábua. Quase todo meu estudo se deu em um colégio com visão mais humanista do que voltada ao vestibular. Lá, tive a oportunidade de participar de grupos de jovens; ajudar a organizar eventos para reflexão ecumênica; preparar e dar aulas para crianças em contexto de violência e falta de perspectivas; promover passeios de conscientização ambiental; apoiar com um grupo de portadores de HIV que se reuniu para obter seus recursos a despeito do preconceito; visitar e ajudar um assentamento sem terra, começando a entender como se dava a organização social da parte séria do movimento; recolher e levar provisões para asilos, orfanatos e favelas que pegavam fogo em meio às péssimas condições estruturais. Após alguns anos testemunhando o sofrimento de quem conta com poucos recursos, não posso deixar de ter a questão social como critério, tendência que aparece antes mesmo de começar a analisar.

2. participação: Este cresceu conforme amadureci minha compreensão da política e dos meios de efetivamente construir uma sociedade mais justa. Estudando Ciências Sociais, lendo um pouco de Hannah Arendt e Marx, aprendi a complexidade por trás do conceito de "ensinar a pescar". Me engajei no projeto "Adote um Vereador"; trabalho com educação cooperativista, por mais difícil que seja; uso os meios de comunicação disponíveis para reivindicar direitos, propor soluções e atuar. Talvez esta seja mais uma etapa da minha evolução política, mas já me permite ter uma visão muito melhor do funcionamento da sociedade, e quero vivê-la intensamente, até ter uma boa razão para mudar. De qualquer forma, independente da maturidade política que se tenha, uma sociedade que se quer democrática deve abrir espaço para que as pessoas participem. Cidadania é muito mais do que votar, é atuar, é reivindicar.

Há os que dirão que só penso em participação popular porque estudei ciências políticas & afins, e que a maioria da população não entende de política, que não sabe como participar... Ao menos em São Paulo existe curso de política gratuito na assembléia legislativa, mas mesmo que não existisse, a internet permite buscar muita informação. Existe acesso a internet gratuita em diversos centros culturais e sociais, e mesmo a internet paga custa, em geral, menos de R$3,00 a hora. Se milhões de pessoas pagam pra votar no Big Brother, não saber política é, em muitos casos, falta de vontade.

É claro que falo de um lugar específico. Moro em São Paulo e é dessa realidade que falo. E é deprimente ouvir pessoas que dizem que vão votar em fulano por não conhecer ciclano. É a ignorância na sua forma mais explícita. Há pessoas que adotam critérios diferentes dos meus, e decidem por candidatos diferentes. Essas pessoas eu respeito mais do que aquelas que por ventura votem no mesmo partido que eu sem saber o que faz.

Nem é preciso muito. Uma análise simples é muito mais louvável do que um "votar por não saber". Pegue um ou outro fato, uma notícia de jornal, um site na internet. Pegue suas próprias experiências ou um assunto que lhe é caro e compare o que o governo fez em diferentes mandatos. É um bom começo. Na minha opinião sincera, se não sabe escolher, não escolha. Assuma o desinteresse, mas não me venha digitar um número na urna porque fulano "parece melhor" ou "não sei o pensar a respeito de ciclano". Agora, se depois de tudo ainda decidir não participar, seja coerente e não venha pregar justiça social. Entre discurso e exemplo, o segundo conta e ensina muito mais.

Pontos

Com critérios definidos, começa a minha análise dos partidos que se candidatam. Assim começo a remexer na memória para contribuir com meus argumentos a essa discussão cheia de ruídos que se faz na campanha eleitoral. Meu voto será baseado na minha experiência e nos contextos sobre os quais puder falar, que faço questão de aqui compartilhar. Só uma observação: não falo em Dilma ou Serra, porque quem governa é uma equipe, formada principalmente de partido e coligação.

Pontos negativos PSDB e PT:

Hipocrisia: ambos contam contradições, por conta de frases guiadas por expectativas de votos. É evidente não poder confiar no que é dito em campanha.

Corrupção: O ponto fraco de ambos os partidos, que me levaram a pensar em não votar. Dentro de ambos houveram desvios, negociatas e malandragem. O PT teve o mensalão, nome novo dado a prática antiga nos meios institucionais; o PSDB envolveu-se em outros escândalos e desvios igualmente prejudiciais ao bem público, como o dos sanguessuga.

Mas eu não desisto do mundo frente aos males que nele existem. Acredito na participação pública como forma de melhorar, e fico chocada que mesmo pessoas que têm filhos não dêem a mínima para a construção de um futuro melhor. Não sei se voto facultativo é a resposta, mas acho dispensáveis os votos de quem não se propõe a analisar. Além do mais, aqui o realismo ataca: algum partido vai ganhar. Não é a ausência do meu voto que vai tirar os dois do poder. Dessa forma, prefiro escolher sobre os critérios que os diferenciam. Assim, sigamos com as diferenças.

Pontos positivos PT:

Social: Constatei na gestão petista da cidade de São Paulo e do país que ações foram realizadas em prol de uma população com mais dificuldades - corredor de ônibus, bilhete único, CEUs, orçamento participativo, redução da miséria e financiamento imobiliário, para citar os que me lembro agora. Alguns outros dados podem ser conferidos em outros sites. O fato é que nas gestões anteriores não havia perspectiva para essa área, considerada a eterna abandonada. Nessas gestões vi algo acontecer. Poderia ter sido feito mais, mas não foi o que vi em gestões passadas.

Participação: com a cidade sob gestão petista, conseguia solicitar linhas de ônibus onde estavam saturados, dar palpite no orçamento e obter resposta sobre sugestões para o transporte público. Enviei a todos os vereadores uma sugestão de projeto e apenas o Donato do PT me respondeu e se dispôs a conversar comigo sobre a viabilidade. Na gestão da Marta, o projeto de concessão de benefícios para população de baixa renda era acompanhado de ação sócio educativa e monitoramento. Um representante da família era chamado a participar de reuniões e discutir a própria realidade, se informava sobre seus direitos e adotava uma postura diferente. Após a gestão, não se encontra mais nem material a respeito. Eu tenho acesso a ele, mas não posso, porém, colocar na internet.

Ponto negativo PT

Pré-determinação: fiquei um tanto decepcionada quando a candidata Dilma Roussef assinou carta em que se comprometia a não mudar a legislação relativa ao aborto. É certo que essa questão compete ao legislativo, mas comprometer-se com a não mudança de um assunto tão mal tratado é triste. O ideal, em uma sociedade democrática, é debate, construção coletiva de um consenso ou definição de uma maioria e então uma decisão.

Ponto positivo PSDB

Promoção do cooperativismo: o Sescoop, instituição em que trabalho atualmente, promotora do cooperativismo, foi criada por medida provisória do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Essa seria uma boa razão para votar no governo tucano, em especial se estivesse concorrendo um intelectual orgânico do partido. Mas não é o caso.

Pontos negativos PSDB

Contra a participação e o social: O governo tucano protagoniza repressão a manifestações, má remuneração e atraso nos benefícios de professores. A manifestação popular é forma importante de influência nos rumos da política. Sabendo disso, não posso ignorar a repressão aos professores estaduais que foi promovida pelo governo tucano no início desse ano, que não é novidade. Os estudantes da USP também a vivenciaram, e também os funcionários. No caso dos professores estaduais, o movimento buscava justamente uma remuneração mais justa, com vale-refeição maior do que R$4,00. Um prato feito na região central de São Paulo, em estabelecimento modesto, custa no mínimo R$8,00. Um professor da rede estadual de São Paulo ganha em média R$11 a hora (valor bruto).

Estágio irregular e repressão: No fim de 2005 prestei concurso para estágio em Ciências Sociais em uma fundação estadual. Ficando em 6º lugar, fui chamada para início em janeiro de 2006. Quando iniciei no novo trabalho, descobri não ter nada de estágio nem de Ciências Sociais. A vaga era para ser monitora de uma sala de acesso à internet do governo. Ficava distribuindo senhas e logando computadores durante 4 horas por dia para ganhar R$400 por mês. Já no primeiro dia questionei, e a resposta foi que se não gostasse poderia me demitir. Não satisfeita, redigi uma proposta de pesquisa à fundação, que foi ignorada até eu realizar uma denúncia ao Ministério Público pela situação irregular. Final feliz? Em resposta aos questionamentos do ministério minha proposta de pesquisa foi acatada, mas dentro em pouco fui chamada para a sala da gerência para ser avisada de que minha postura era indesejável, que sabiam que eu havia feito a denúncia e que queriam me mandar embora (mesmo tendo entrado por concurso), pois eu era "chave de cadeia". Assim, se eu não "me comportasse", tomariam providências. Não demorou muito para outros estagiários mostrarem sua revolta, que também não ficou inócua. Depois de algum tempo consegui outro emprego e deixei a questão para os próximos se ocuparem. Anos depois ainda ouvi que mais gente acionou o Ministério Público pelos mesmos motivos.

Censura: como parte do trabalho, fomos incluídos em uma ferramenta de comunicação muito interessante. Os monitores de todos os postos participávamos de fóruns virtuais, em que podíamos trocar informações relevantes e úteis para o nosso trabalho. A ideia passada era que poderíamos também apontar o que não estava funcionando. Vi isso com esperança, não de denunciar a posição da Fundação com relação ao meu estágio, mas de dar ideias de melhoria no sistema e questionar o que não funcionava. Não me lembro agora do conteúdo dos tópicos colocados, e se minha memória ajudar voltarei a editar o post, mas lembro bem que o que não era conveniente era apagado, e não fui a única a notar. Não era contestado, nem negado. Os questionamentos misteriosamente sumiam do ar.

Mesmo após ter saído do Programa continuei informada sobre alguns acontecimentos, pois mantive contato com monitores e usuários do Programa. A comunidade do Programa no orkut também teve posts e tópicos apagados (inclusive meus, depois de sair dele). Existe um monitor lutando contra isso há muito tempo. Existem usuários que até hoje me escrevem para desabafar sobre maus tratos nos postos de atendimento. Eu sempre os incentivei a dar sugestões e tentar mudar a realidade, mas parece não funcionar.

Kassab: Em 2006, diferente do que alegou em campanha eleitoral, José Serra entregou São Paulo nas mãos de Kassab. Há um ponto positivo nessa gestão: o 156 ouve a solicitações (quando é possível falar). Mas isso não chega perto de fazer valer todo o resto. Sob essa gestão vivenciei as maiores dificuldades em participar, opinar, sugerir ou reivindicar algo. Em geral passei por uma via sacra para, no fim, ser desprezada. Acionei ouvidorias que não funcionavam, reclamei no site a falta de fiscalização em uma via em que já vi acidentes, e me responderam, na mensagem com o histórico, que eu usasse o 156, que só atende em horário comercial.

No governo do Kassab, que se arroga competente por instaurar leis estéticas na cidade, consigo pedir pra consertar uma lâmpada, mas não para instalar uma nova; consigo reclamar de uma infração do motorista de ônibus, mas não pedir uma linha ou denunciar que mal é possível respirar dentro de um ônibus na avenida Francisco Morato às 8h da manhã. Presencio impotente um pai entrar no ônibus lotado com duas crianças pequenas, por falta de opção de transporte, e se ver obrigado a entregá-las para que os outros passageiros conduzam de mão em mão até a porta, pois de outra forma não conseguiriam passar. Reclamo que um senhor de idade com bengala ficou nas escadas do ônibus em movimento com as portas abertas e tenho o silêncio como resposta.

Quando consigo pedir linhas de ônibus onde estão escassos, desconfio que fui a única a solicitar, pela falta de retorno, até ouvir em uma reunião de bairro que ficaram esperando 1h45 por um ônibus, após andar centenas de metros a mais porque a linha foi desviada ou seu trajeto reduzido. Quando reclamo de uma carcaça de cachorro desintegrando na rua há semanas, discutem comigo alegando não haver cachorro algum a ser retirado, até que eu desista porque ele virou um monte de restos espalhados pela chuva. É indescritível minha revolta ao ver o prefeito de São Paulo chamando um cidadão de vagabundo diante desse descaso com boa parte da população que elegeu o Serra, acreditando no compromisso que ele havia feito de não deixar a gestão da cidade.

Privilégio do econômico sobre o social: Serra usou em um dos debates eleitorais, uma expressão de Delfim Neto: "fazer crescer o bolo para depois dividir". Além de mostrar qual é a linha de governo que será defendida, a história mostra que isso é uma farsa. Não há crescimento de alguns para depois distribuir para todos, o que no mínimo geraria acusação de desrespeito à propriedade privada.

É muito descarado esse tipo de discurso, especialmente de alguém com estudo. Fosse semianalfabeto, poderia alegar não conhecer o funcionamento do capitalismo; fosse semianalfabeto, poderia não ter analisado esse momento da história; fosse semianalfabeto, poderia se iludir quanto a uma economia de longo prazo em que o governo "acumula e divide"; fosse semianalfabeto, poderia se agarrar a jargões da década de 70 em campanha política. Mas o mestre em economia José Serra deveria saber disso.

PNDH-3: Muito atacado e pouco lido, o plano é certamente polêmico. Ainda o estou lendo. Por ora sou favorável à defesa que faz dos direitos humanos e sociais. Fui ao pronunciamento do ministro Paulo Vanucchi sobre o Plano, realizado no auditório do Instituto Sedes Sapientiae, em Perdizes, no dia 22/04/2010. Lembro que Vanucci disse claramente que mesmo que o PT não continuasse no governo, o plano teria continuidade, pois o próprio Serra havia declarado ao ministro seu apoio ao PNDH. Em campanha, o plano é negado.

Conclusões

Fico triste ao constatar que meu voto se baseia mais na evitação do que em boas propostas. Ainda assim, não quero votar nulo e correr o risco de sofrer mais 4 anos de repressão à minha participação ou à de grupos que vislumbram maior participação e direitos. Meus dois critérios principais me deram a resposta de qual grupo me apresenta a melhor perspectiva de governo. Encorajo cada um a tomar consciência dos seus, com o método que lhe for melhor, mas sem deixar de fazer esse exercício: listá-los e analisá-los.

Toda escolha tem risco de estar errada. Por um candidato, por outro, ou pela abstenção. Eu assumo os riscos da minha análise sabendo que, se estiver errada, crescerei com isso, coisa que não aconteceria se não me propusesse a pensar a respeito.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Proibida a maldade




A ideia é tentadora, mas sinto dizer: não é a criminalização do mal que vai fazer com que ele deixe de existir.
Muita gente tem a falsa impressão de que a lei cuidará de tudo, mesmo sabendo que as leis são burladas o tempo todo, até mesmo pelos cidadãos considerados mais honestos.
Imagine você um lugar em que a polícia fiscalizasse todo o cumprimento da lei, inclusive as de trânsito e as mais desconhecidas da população. Além de inviável, inexistente. Agora volte à realidade, em que nem leis importantes são bem fiscalizadas, e acrescente a criminalização do uso de drogas, da irresponsabilidade no trânsito, de crimes cometidos por menores de idade, da falta de ética e de tudo o que gostaríamos que não existisse.
Adiantaria? O consumo de drogas acabaria? As pessoas deixariam de passar o pé nos colegas pra conseguir vantagens particulares? É claro que não. Ao vislumbrar a possibilidade de um acirramento em qualquer fiscalização as pessoas já começam em argumentos, recursos e mesmo em propinas. Quem nunca ouviu que radares são indústrias de multas, que a lei só é aplicada a quem paga impostos e toda sorte de lugar-comum incorporado ao discurso de quem não quer lembrar que está cometendo infrações?
O país precisa melhorar muito, e existem problemas que não são sanados com um ou dois projetos sociais, muito menos com uma ou outra proibição. Muitos problemas precisam de ações múltiplas e integradas, em especial quando estão generalizados há muito tempo, como a desigualdade social e a violência. Para isso existem estudos, instituições, congressos e militância por educação de qualidade. Para isso existe uma cultura que vai além do pão e circo, que insiste em tentar mudar a realidade continuamente.
Agora, quem não consegue entender isso acha que chamando a polícia os problemas do mundo desaparecem; acha que proibindo o aborto ele deixará de ser realizado; só falta achar que proibindo o câncer ele deixará de matar pessoas.
Não queremos uma sociedade regida pela polícia. A polícia é uma entre tantas instituições, com funções definidas. Não quero acreditar que chegamos a tal ponto em que as relações sociais estão desacreditadas a ponto de tudo precisar de algemas. Se um dia isso acontecer, vamos fechar as escolas e abrir delegacias pra colocar nossos filhos assim que começarem a pensar em travessuras.