segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sutilezas

A partir de sutilezas podemos construir noções, cristalizar valores, educar.
Para além do discurso, as atitudes e escolhas exprimem, dão exemplo e podem, com insistência, transformar ou perpetuar um tipo de pensamento.

E é por isso que temos que ter cuidado ao ouvir uma música e sair cantarolando sem perceber o que estamos fazendo. É por isso que temos que refletir se vale a pena divulgar músicas como a Reinventar, do cantor Belo, que em sua letra inclui a ideia “Atrás de um ditador existe um grande amor”.

Quem aceita e repete esse tipo de alusão?
Quem coloca amor na mesma linha de ditadura?
Diante de inúmeros casos de violência, de um mundo que oferece alternativas várias de relacionamento, autodesenvolvimento, um mundo em que mesmo os menos instruídos encontram em livros de autoajuda noções de autovalorização, achar normal que uma insinuação desta seja escrita, colocada em melodia, ensaiada, repetida e reproduzida é cooptar com a violência.

Rechaço.

12 comentários:

  1. Oi Lu!

    Mal dá pra acreditar que alguém escreveu uma barbaridade dessas... Qual a próxima estrofe? "Há carinho atrás da tortura"???

    Quanto às suas idéias, gostaria de saber se você acredita que as sutilezas são tão eficazes quando são algo que se oferece de si para si mesmo quanto são quando oferecidas aos outros.

    Beijos!
    Rê.

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  2. Oi Rê!

    Não consigo imaginar.
    Como oferecer sutilezas para si mesmo sem que deixem de ser sutilezas? Elas acabam ficando evidentes, não? Você fala em algo não consciente?

    Beijo!

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  3. Oi Lu!

    Sim, pensei em autoanálise, na qual os atos falhos têm grande importância.

    De modo que podemos nos surpreender: "se eu disse X é porque penso Y e Z, não sabia desse detalhe de mim mesmo".

    Mas isso caracteriza sutileza ou esta só pode surgir verdadeiramente quando é voluntária?

    Beijos!
    Rê.

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  4. Poxa, que surpresa agradável descobri esse seu blog totalmente por acaso! Não pude deixar de querer comentar esse seu post.

    Eu concordo com você, acho que a frase foi um tanto infeliz e desnecessária, mas nada além disso. Não vejo nela violência ou idéias perigosas além da conta. Eu acho que para além desse tipo de preocupação (sobre o que se quer dizer e o que se diz) deve haver um espaço que admita a liberdade de pensamento e de expressão. Claro que devemos nos posicionar em relação a tudo que chega até nós, mas igualmente a todos deve ser permitido (e até certo ponto incentivado) a diversidade de pensamento. Se eu (num exemplo chulo) considerar adequado defender a importância histórica de grandes ditadores, devo ser responsabilizado por aquilo que digo, mas não impedido de falar. Caso contrário, vemos surgir e se desenvolver um grupo moralmente vigilante, que supõe ser possível “perpetuar seu tipo de pensamento”, tido como o mais adequado e dessa forma domesticando a maneira de pensar de todos.

    Outro ponto a ser colocado é a polissemia das palavras e o fato delas adquirirem novos significados em diferentes contextos. Assim, falar em ditador (junto com amor) pode não ter o objetivo a principio esperado. Eu pessoalmente, lendo a letra da música, achei essa frase bem fora de lugar, uma expressão ao acaso e que não faz nenhum tipo de referência a ditadores na maneira como os concebemos. Achei a letra bobinha e a referida frase não adiciona em nada...

    Isso se não pararmos pra pensar se de fato o amor (enquanto sentimento humano idealizado como puro) não trás em si certas perversões ou “efeitos colaterais” indesejados. Ciúmes doentio, crimes passionais, etc... Sentimentos e comportamentos que expõem a complexidade das relações humanas. O amor não é um mar de rosas como se espera, e muitas atitudes reprováveis são tomadas em nome desse “nobre sentimento”. É totalmente possível que uma figura de caráter autoritário e violento se ache movida pelo amor (em sentido amplo). Mas esse ponto em específico é mais viagem minha mesmo... queria me focar mais no fato de escrevi antes mesmo.

    Um último ponto na minha chatice é a de que a violência (em sentido amplo) é parte integrante de nossa sociedade e de nós mesmo. Claro que a reprovo com veemência da maneira como ela se dá; nada justifica a morte de uma pessoa, nem qualquer dos vários tipos de violência disponíveis a nossa volta. Porém (não só, mas também) em caráter simbólico ela sempre estará presente em nós. As formas de expressão cultural em geral (músicas, artes plásticas, literatura, quadrinhos, videogame) sempre flertaram com ela, às vezes até de maneira incisiva e explícita, exemplos existem de monte. Porém tenho mais medo de pessoas querendo controlar o que ouço ou leio do que dos possíveis (e improváveis) efeitos de uma música sobre o meu comportamento.

    De qualquer forma, me desculpe pelo comentário imenso e obrigado por fazer com que eu perdesse um bom tempo pensando sobre essa questão.

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  5. Oi Rê!

    Eu estava pensando nos efeitos das sutilezas sobre as pessoas, mas pelo que entendi você está falando das sutilezas que expressam o que a pessoa já é, não que instauram algo novo (em si mesmo). Certo?

    Beijos
    Lu

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  6. Olá Fernando

    Também acho que deve haver liberdade de expressão. Em momento algum sugeriria a censura ao cantor. Mas a partir do momento em que temos liberdade de expressão temos que passar a uma nova etapa: o debate. Como você mesmo percebeu, ser a favor da liberdade de expressão não quer dizer não reagir a nada do que dizem. Dessa forma, de nada valeria.

    Falo de ter cuidado com o que dizemos porque mesmo descuidos reforçam uma série de atitudes que vêm fazendo com que muitas mulheres sofram e aceitem isso. Ainda não temos igualdade de direitos nem de respeito, então acho que cabe apontar o que promove ou não a busca dessa igualdade.

    Mas no caso de uma música que é pensada, escrita, repetida inúmeras vezes e trabalhada por várias pessoas, não acredito em descuido. Se houve, estamos numa situação ainda pior, em que a moral das pessoas está tão fraca que estamos expostos a reprodutores de violência – como já apontava Hannah Arendt com a banalidade do mal (Eichmann em Jerusalém).

    Entendo e concordo que pessoas com os mais polêmicos defeitos amam. Ainda assim, recuso a normalização de posturas assim. Não somos absolutos. Agimos de formas mais ou menos positivas, mais ou menos prejudiciais. É por isso que gosto de apontar as atitudes que podemos promover ou evitar, e não me iludir achando que posso apontar “as pessoas” ou uma pessoa em geral como boa ou má.

    Tenho notado que muitas músicas promovem a normalização de comportamentos perniciosos como alcoolismo, machismo e ciúmes, e sempre que puder vou exercer minha liberdade de expressão em rechaçá-las.
    Temos tanta música bem feita pra compensar isso!

    Abraços
    Luciana

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  7. Oi Lu!

    Certo! Acho que é minha maneira de ser capaz de sutilezas - em geral sou como elefante em loja porcelana.

    Eu entendo que você ofereça sutilezas como ofertas carinhosas, como manifestações de interesse espontâneo.

    Mas eu minha vida toda lutei para ser o mais simples, evidente e claro possível, em minhas ações, palavras e idéias.

    De modo que costumo "desprezar" as sutilezas como um instrumento tipicamente usado por quem gosta de "enrolar", "embromar" ou simplesmente acha que complexidade é uma qualidade desejável num discurso.

    Que se fale de modo simples sobre tudo, é o meu lema! Desculpe se com isso não aprecio sua sutileza - mas caminho na direção inversa.

    Beijos nada sutis,
    Rê.

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  8. Oi Rê!

    Não pensei nem em maneiras de ser capaz de sutilezas, mas no fato de expressarmos algo que existe em nós ou de interferirmos no mundo (processos que geralmente se seguem).
    Eu > meu comportamento
    Meu comportamento > mundo (educação, influência)

    As sutilezas de que falo não são ofertas carinhosas, como o caso da música. Na verdade aqui sutileza não é o jeito de falar ou agir, são detalhes que podem passar despercebidos em meio a algo geral - como uma frase no meio da música.

    Beijos evidentes – o que acho mais digno de aplauso que escamoteios!

    Lu

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  9. Mais uma música perigosa, que afirma que "todas as mulheres são desse jeito": Sorriso Maroto - Boa Noite.
    Não ouvia esse tipo de música e não me atentava a essas investidas constantes contra a evolução da equidade de gênero.
    Alienação intelectual? De que adianta negar música popular se o mundo em que vivemos é influenciado por ela?

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  10. Indução de comportamento de conflito, fazendo uso de recursos de humilhação e afirmação de uma identidade de grupo estreita: Marcelo D2 - Qual é

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  11. Oi Lu!

    Você sabe que sou feminista, mas vejo a luta como se fosse um secular recuo da altura dos oceanos - diminuindo um centímetro por século, por exemplo.

    Mas a maré sobe e desce todo dia... Se formos lutar contra cada subida, contra cada machista, perderemos de vista que a luta verdadeira, a luta de emergência da nossa situação desesperadora, é contra os grandes poluidores e ao consumismo, é contra a discriminação de salário e à violência de gênero.

    Beijos!
    Rê.

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  12. Nossa vida é complexa. Não precisamos abrir mão de uma questão para nos dedicarmos a outras.
    É fato que pra maior dedicação acabamos tendo que escolher algo, mas isso não nos impede de reagir às demais.

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