quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Não li o texto, mas acho...



Vejo com frequência assustadora uma tendência que confunde humildade com preguiça de saber, que valoriza a opinião crua mais do que a tentativa de qualquer embasamento, por mais que as informações estejam cada vez mais à mão, de graça, por todo o canto.
É o “não li, mas acho”, “não conheço, mas tenho certeza” e seus parentes mais sofisticados, como julgar um pensador cuja obra nunca folheou, criticar uma corrente de pensamento que nunca buscou entender ou vomitar conclusões sobre o trecho de um discurso proferido em um contexto de que não se faz ideia. Falar vigorosamente de política sem entender um décimo do esquema, nem se fala.
Vejo gente que é capaz de perder noites de sono tentando ganhar uma discussão, mas que não se dispõe a passar vinte minutos lendo um texto que poderia esclarecer tudo o que a discussão perde de vista. Prevalece a opinião sobre o fato, o palpite sobre o estudo, não raro acompanhados do desprezo pelo que é acadêmico e da rejeição a textos longos como algo petulante. Com o pretexto de combater o elitismo e o rebuscameto linguístico, rejeita-se tudo o que não é raso e pasteurizado.
Sinto dizer: nem tudo pode ser explicado como um comercial de TV. Tem coisas que exigem leitura, estudo, atenção. Tem gente que, sabe-se lá por que, tem dificuldade de expressar uma ideia em 140 caracteres ou em uma figurinha com frase impactante. Tem gente que escreve mais do que precisaria pra dizer qualquer coisa. Eu sou um exemplo. Tenho uma dificuldade imensa de síntese, e não raro tive que ouvir reclamações de pessoas que acham que um texto de mais de três linhas é uma afronta ao modo de lidar com o conhecimento contemporâneo: ler a manchete e achar que entendeu o mundo.
Quer dizer que passando de um certo número de palavras tudo o que está dito ali pode ser jogado no lixo como não tendo nenhum valor? Tudo o que não tem só palavras simples é elitista? Tudo o que se baseia em teorias é petulante? Muitos se comportam diariamente como se assim fosse. Entre esses, muitos ainda têm a cara de pau de compartilhar figuras bonitinhas com dizeres em torno da importância da leitura, de como são viciados em livros e de como as pessoas precisam parar de consumir informação processada pela Globo.
No campo simbólico, selecionam o discurso que lhes pareça mais culto. No campo prático, reclamam da rigidez do professor, da chatice do colega que não quer colocar seu nome no trabalho, dos critérios de merecimento que tiram a graça do mundo em que tudo se compra; enfim, de tudo o que exige ler e escrever.
Outra tendência, prima dessa, é a de rejeitar o que não se entende. Usou um termo que eu não conheço? Não presta, mesmo que a Wikipédia explique o termo em duas linhas. Falou de uma teoria que me é estranha, é besteira. Usou um discurso um pouco mais articulado, é arrogante e deve ser repugnado como inimigo da filosofia das frases de efeito.

Não quero que concordem comigo em tudo. Não quero dizer tampouco que apenas o que é acadêmico tem valor. Mas o movimento contrário, de desprezar o que é fundamentado em nome do julgamento fraco de alguém que não leu, mas acha, não conhece, mas tem certeza... Esse eu não respeito mesmo.

2 comentários:

  1. Tivemos dois meses de demonstração explícita dessa preguiça (misturada com todo tipo de preconceito) nos meses de campanha política. Impressionante a rapidez com que se desqualifica o argumento alheio em favor do achismo e do ódio pelo que pensa diferente.

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  2. Mas acabou Fernando? Vejo tanta gente que parece que continua em campanha que não sei se é obsessão ou se eu fiquei tão perturbada pela campanha que estou vendo coisas se repetirem na minha frente! rs

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