domingo, 30 de agosto de 2015

O bolo

Às vezes as coisas começam a dar errado uma atrás da outra e eu fico emocionalmente abalada, como se minha vida estivesse uma bagunça. Eu sei que tem muita gente com problemas mais graves que eu, mas saber disso não ajuda a sentir satisfação no fim de um dia de tentativas frustradas. No fim das contas, cada um de nós tem sua gama de problemas, mais ou menos graves, e tem que lidar com eles, independente do que os outros possam estar passando em comparação.
Hoje, no entanto, teve uma cena que me fez relativizar minhas sensações. Estávamos voltando da praia em um ônibus lotado. No meio do ônibus começou uma confusão. Um senhor bêbado, aparentemente morador de rua, estava se irritando com as pessoas ao redor porque ele tinha ganhado um bolo, e com a lotação do ônibus, o bolo dele poderia ser estragado.
Ficou evidente que aquele bolo tinha um valor tamanho para aquele senhor que ele estava muito estressado pela possibilidade de perdê-lo. Era um desses bolos de padaria, parecia de fubá com passas ou algo parecido, redondo, dentro de uma embalagem plástica. Depois de balbuciar algumas coisas que fizeram com que todo o ônibus se voltasse para ele, ele decidiu sair. O motorista até ficou parado mais tempo no ponto para esperar que ele conseguisse a proeza – como eu disse, estava lotado – de sair.
Ele passou se equilibrando da bebedeira, em meio aos passageiros impacientes, olhando firmemente para o bolo, que tinha que ser preservado. Finalmente ele saiu. E foi o passo para descer do ônibus o passo de misericórdia: o bolo caiu, a embalagem se abriu e tudo se espatifou pelo asfalto. Uma rápida olhada ao redor revelou que todos os passageiros do ônibus estavam olhando para o bolo, e para o homem que não sabia o que fazer diante dele. O motorista não saiu. Tudo parou diante daquela cena, daquela esperança particular que acabava de ser frustrada em público, com plateia. Todos permaneceram olhando sem dizer uma palavra enquanto o homem de cerca de setenta anos (talvez menos, mas já castigado) andava de um lado para o outro olhando para o bolo, e depois quando ele sentou na sarjeta e recolheu os pedaços do chão, colocando tudo de volta na embalagem plástica.
Parecia que tinham piedade. Quando, por algum motivo, o senhor fez menção de entrar no ônibus novamente, no entanto, alguns protestaram e pediram para o motorista fechar a porta e sair. Era como se a cena fosse comovente o suficiente para chamar os comerciais, não para exigir mais envolvimento ainda. Era como se, de repente, o incômodo que aquele senhor causasse fosse mais importante do que qualquer frustração que ele tinha, e que ele tivesse que continuar vivendo a sua angústia sozinho.

Não sei quanto aos outros passageiros, afinal, há muitos que como eu, nada disseram. Quanto a mim, levei o senhor na minha cabeça até o fim do dia. Nada fiz, não sei o que poderia fazer para melhorar o dia daquela pessoa que estava tentando salvar as coisas mais simples sem conseguir, um tropeço atrás do outro, sabe-se lá há quanto tempo. Hoje eu não consegui achar que os meus problemas são tão difíceis. 

domingo, 2 de agosto de 2015

Minha dose de otimismo na política

Existem os que acham que piadas ofensivas sobre outra posição política são sinal de sabedoria. Apesar deles, existem os que estudam e tentam entender o sistema.

Existem os que têm medo de ser vistos como burros e reproduzem a opinião dos outros. Apesar deles, existem os que pensam e formam a própria opinião, mesmo que seja diferente de quem está ao seu redor.

Existem os que se inflamam junto com os discursos tendenciosos da televisão. Apesar deles, existem os que leem livros para entender tendências.

Existem os que se chocam e disseminam loucamente informações falsas que amigos ou mesmo revistas fornecem de forma irresponsável. Apesar deles, existem os que conferem a veracidade da informação em fontes oficiais.

Existem os que bradam palavras de indignação nas redes sociais e usam a corrupção alheia para justificar as próprias corrupções. Apesar deles, existem os que cobram o poder público e buscam viver o que defendem.

Existem os que têm ódio de um partido, faça chuva ou faça sol. Se esse partido acabar com a fome, ainda terão ódio. Se esse partido acabar com as guerras, falarão que não foi ele. Se esse partido melhorar substancialmente a vida de todos os cidadãos sob seu governo, dirão que nunca foi pior.  pesar deles, existem os que reconhecem quando o partido de que não gostam faz algo de bom.

Existem os que defendem um partido em qualquer situação. Se rouba, faz. Se está com dificuldades, é culpa da oposição. Se perdeu, a eleição foi fraudada. Se a economia vai mal, é o mundo. Se não tem água, foi São Pedro. Apesar deles, existem os que admitem quando seus partidos erram.

Existem os que acham que, a partir do momento em que escolheram um lado na discussão, devem defendê-lo até o fim. Apesar deles, existem os que aceitam mudar de posição de acordo com fatos e argumentos novos que se apresentem.

Existem os que querem voltar às brigas de jardim de infância. Apesar deles, existem os que estão prontos para a discussão. 

domingo, 14 de junho de 2015

As emoções e a capacidade de pensar

Mitos e tabus vão muito além da religião. Temos o pensamento cercado por assuntos proibidos e respostas prontas de defesa contra algumas opiniões. Na maior parte das vezes, as respostas não são nossas, mas foram incorporadas de um grupo que exerce pressão sobre nós por necessidade, força dialética ou até mesmo afeto. Geralmente damos a essas ideias nossos contornos e acrescentamos um pouco do que pensamos, mas sem a devida reflexão tendemos a ser somente propagadores do que os outros pensaram por nós e nós confortavelmente acatamos.
Desde crianças, no lar em que buscamos nossas primeiras referências de mundo, ouvimos chavões próprios de visões de mundo que carregam também seus preconceitos. Vimos em fábulas, filmes e livros diversas associações de valores a conceitos que sustentam formas fáceis de julgar as pessoas: se você não tem religião, você é imoral; se você se preocupa com sua aparência, você é fútil; se você reclama das coisas, tem problemas sexuais. Muita gente admite que mesmo os seus objetivos de vida mais duradouros nasceram nessa fase de fábulas.
Quando crescemos, podemos mudar de opinião com a ajuda de um outro grupo, um outro livro ou uma boa noite de reflexão, o que representa um grande passo rumo a uma análise mais imparcial das coisas. Às vezes, no entanto, apenas trocamos um conjunto pronto de concepções por outro e nos apegamos de forma igualmente emocional ao grupo que nos forneceu esse novo ponto de vista. Nessas relações emocionais é comum darmos muito mais crédito aos argumentos do nosso grupo e defendê-los de críticas antes mesmo de analisar se concordamos ou não com eles.
Essa noção de defesa grupal é saudável na medida em que muitas coisas precisam de posicionamento rápido, sem muito tempo para divagar; mas é perigosa na medida em que, passando o momento da necessidade de coesão, ninguém mais questione, nem no grupo, nem em seu próprio íntimo. Corre-se o risco até mesmo de perder o lastro do argumento inicial em nome da defesa incondicional de um totem, uma bandeira que encaramos como se fosse sagrada, e em torno desses totens criam-se novas regras de comportamento, novos chavões e atitudes tidas como absolutamente ideais ou desprezíveis.
Todos jogamos com esses elementos e também somos peças nos jogos dos outros. Em uma simplificação grosseira do conceito de capital em Bourdieu, é como jogar cartas em um jogo com regras próprias e sem fim definido. Quando nos dispomos a jogar, aprendemos o que é mais valorizado naquele contexto, o que tem mais chances de nos manter na partida e o que pode nos levar a perder muitos pontos. Quanto mais manipularmos os conceitos que o grupo valoriza, maior a chance de garantimos nosso prestígio e assegurarmos nosso pertencimento.
As regras e suas consequências são tão repetidas por pessoas emocionalmente importantes para nós que é difícil combater a sua força; e o medo de ser excluído de um meio que concentra a nossa vida emocional pode nos levar a acatar ideias com as quais jamais concordaríamos se tivéssemos apoio em outro lugar. Para a maioria das pessoas é muito importante fazer parte de um grupo, ser identificado como pertencente a ele, e isso as leva não somente a jogar o jogo intensamente, como a lutar para que as regras não mudem, os conceitos permaneçam e as ideias estagnem, mesmo se no meio do percurso elas se mostrarem erradas.[1]
É importante refletir, com relação ao grupo de que se faz ou se pretende fazer parte: qual é o limite entre a coerência com ele e a sua autonomia de pensamento? Quanto de conformidade ele demanda e até que ponto isso afeta a sua liberdade para se posicionar? Quão estreita é a borda que o grupo impõe ao espaço de discussões dentro dele? Isso varia absurdamente.
Quando começo colocando que “além da religião” existem outros mitos e tabus, apresento minha opinião de que as religiões cerceiam de diversas formas o pensamento autônomo: você pode interpretar o mundo, desde que não contrarie os dogmas; você tem liberdade, desde que siga as tarefas de um calendário pré-determinado; você tem opinião, desde que seja coerente com o que um determinado livro diz; você pode questionar, desde que isso não coloque a sua fé em dúvida – e isso te faria perder muitos pontos.
A religião é um campo em que as limitações estão mais claras, mas certamente não é o único que as impõe. Quando alguém grita palavras de ordem sempre que uma discussão se inicia, quando se mantém o hábito de tirar sarro de quem pensa diferente, quando um questionamento é exposto ao grupo como objeto de chacota e em diversas outras manifestações de verdade intocável, tabus se fortalecem e as limitações ao pensamento se tornam mais opressivas.
Com paixão pelo conhecimento e pela análise crítica das coisas, no entanto, essas limitações podem ser postas à prova e, um dia ou outro, muitas delas perdem nossa adesão. É possível avançar na discussão e quebrar tabus sem perder laços, mas esse processo exige tanta compreensão e jogo de cintura que o mais comum é que os grupos se rompam, pessoas saiam ou sejam excluídas, e a concepção de um ponto de vista diferente se inviabilize de vez.
É preciso libertar-se sempre, ao menos em pensamento, para poder adotar posturas mais inteligentes ao longo da vida. De outra forma, não nos distanciamos tanto dos que chamamos de fundamentalistas. Talvez nossos fundamentos sejam pacíficos, ou mesmo frutos de uma longa construção coletiva, mas a crença absoluta neles nos impede de aprimorá-los e paralisa o nosso próprio desenvolvimento. Pensemos bem quando nosso sangue subir diante de uma opinião diferente. Pode ser que ela seja absurda, ou pode ser que nossos instintos de proteção grupal estejam sobrepujando nossa capacidade de pensar.

[1] O filme “A Vila” ilustra de forma bastante interessante esse processo de manter aquilo que une o grupo, mesmo que seja prejudicial ao próprio grupo.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Carpe Diem

Existem muitas mensagens motivacionais com a promessa de mudar a sua vida a partir daquele instante. Se isso é verdade, por que será que elas continuam sendo procuradas, geralmente pelas mesmas pessoas? Não bastaria lermos um texto transformador e começarmos a agir diferente a partir daí?
Eu acho que não é isso o que acontece. As pessoas são lembradas e relembradas da importância de promover mudanças na própria vida e mesmo assim raramente essas mudanças são implementadas. Sei que cada um tem um estilo diferente, mas na esperança de ajudar uma parte de quem me lê, compartilho o que funciona para mim.
Eu sou uma pessoa que funciona bem com rotinas, planos e sistemas. Para mim, um dia bem aproveitado é fruto da incorporação de bons hábitos, o que gosto de fazer pouco a pouco. Não faz muito tempo, em uma aula de francês, começamos a discutir sobre ecologia. Como era de se esperar, houve grande concordância sobre a importância de preservar o planeta. Mas quando o foco passou a ser os hábitos de cada um, não foi difícil perceber que essa importância mora no nível do discurso e passeia de vez em quando pela prática.
No discurso eu não me considerei uma pessoa muito ecológica, porque conheço quem seja bem mais do que eu. Na hora dos exemplos, meus hábitos impressionaram os colegas. Não uso carro há cerca de quatro anos, faço minhas compras em mercados próximos de casa, dou preferência a produtos locais, separo todo o lixo para reciclagem, levo minha própria sacola ao mercado e outras coisinhas mais.
Colocando assim parece muito, e isso só no que tange à ecologia. Se entrar em temas como línguas ou desenvolvimento profissional vai muita linha pra contar metade da história. Bem, depois da aula o professor, também surpreso, me perguntou qual era o segredo. O meu é mudar meus hábitos aos poucos. Não foi um texto motivacional que mudou a minha vida de um dia para o outro. Adotei uma coisa por vez, até porque em geral elas pedem um tempo de adaptação.
Um dia adotei o hábito de colocar uma sacola na bolsa, assim não precisaria mais pedir saquinhos no mercado. Parece bobo, mas eu demorei a me adaptar até a isso. Às vezes guardava as compras e esquecia de colocar a sacola de volta na bolsa; às vezes escolhia uma sacola ruim, que ocupava muito espaço e atrapalhava tudo; outras vezes levava menos do que o necessário pra carregar o que eu precisava comprar. Com o tempo achei a minha medida, e quando a coisa passa a fazer parte do seu modo de vida, não é mais um sacrifício.
Separar material reciclável deu trabalho também. Quando fui morar com o meu marido, ele colocava na mochila, percorria metrô, ônibus e um caminho a pé para levar até a lixeira perto do trabalho, que era a única que ele conhecia. Isso fazia com que, às vezes, desse desânimo pra continuar levando. Pesquisei no site da prefeitura onde tinha coletas de recicláveis e descobri, surpresa, que a nossa rua era uma rota da coleta seletiva. Só que como ninguém no condomínio colocava reciclável na lixeira, o caminhão tinha deixado de parar ali.
Conversei com a administração do condomínio sobre os dias em que a coleta seletiva passava e recomendei avisar os vizinhos. No início teve resistência: “Ah, as pessoas não ligam pra isso. Elas vão começar a colocar em dia errado, vai dar confusão.” Insisti. Liguei pra prefeitura e falei que o caminhão podia parar ali porque ia começar a ter coisa pra recolher. Comecei a levar o meu reciclável no dia em que o caminhão passava. Fui xingada por uma vizinha, que achou que eu estava colocando lixo comum no dia errado. Expliquei que não, que esse era o dia da coleta seletiva e que eu só estava colocando material reciclável. Ouvi mais xingamentos depois disso, mas continuei. Falamos na reunião de condomínio. Alguns anos depois, não cabe mais material reciclável nas lixeiras, e o caminhão para ali sempre, porque todo mundo está fazendo isso.

Deu trabalho? Um pouco. Mas eu escolhi dedicar um pouco da minha vida a fazer algo de que eu me orgulhe. Quando se escolhe uma coisa para dar atenção até virar um hábito, é possível. Uma vez incorporado, ele abre caminho a outros, e quando você vê, está surpreendendo quem faz discursos sobre a sua prática.  

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Dois pesos

Desde que decidi me dedicar à escrita fiquei com o olhar mais atento ao modo como as pessoas reagem a textos, à linguagem usada, aos seus elementos e formas. Comecei a postar textos com linguagens diferentes em diferentes meios e observar a reação das pessoas que liam. Com isso, aprendo sobre o que chama a atenção, o que interessa e o que perde leitores.
Tem um aprendizado, no entanto, que eu notei que precisa ser compartilhado, muito mais do que utilizado: um sem-número de pessoas adora textos que corroboram a própria visão de mundo, mesmo que não sejam verdade.
Pessoas geralmente superatentas a detalhes lógicos e à veracidade das informações acabam passando por cima de qualquer cuidado quando a publicação em questão reforça o que elas pensam. Conscientemente ou não, adotam uma postura dupla: se discordam da ideia central de um texto, dissecam, analisam, problematizam e apontam até erros de português do autor. Se concordam com o argumento central, ignoram falácias, maus argumentos e deixam passar até mesmo informação falsa.
Já vi gente que em uma linha pede para não generalizarem as críticas aos seus correligionários, e na linha seguinte afirma que “os jornais estão dizendo” algo que leu em uma revista tendenciosa. Muitos gostam de brincar com números: se um grupo fez uma manifestação de que a pessoa discorda, ela seleciona as contagens de institutos de pesquisa que mostraram menor participação. Se a manifestação foi por algo de que ela gosta, ela acusa o mesmo instituto de pesquisa de vendido, manipulado, mentiroso ou o que for para desacreditar a sua contagem.
Para não dizer que isso é coisa de gente incauta, lembro de um episódio emblemático na faculdade em que eu estudava. No último ano do curso eu já não estava tão empolgada, nem com tanto tempo disponível para ler tudo o que era obrigatório para o acompanhamento das disciplinas. Assistia às aulas e lia parte da bibliografia. Um dia, chegou a prova de uma disciplina de Ciência Política, área bastante objetiva, mas que também conta com partidários de correntes e ideologias nas cátedras. A prova envolvia teorias de dez autores que deveríamos ter lido até o momento. Eu havia lido seis. Pouco antes da prova começar, no entanto, um amigo me disse qual era a tendência política da professora: qual era a linha de pensamento que ela aplaudia e que questões ela considerava importantes dentro daquele tema.
Como muitas, era uma prova dissertativa, com bastante espaço para argumentação. No entanto, era necessário conhecer as teorias para argumentar propriamente. Argumentei com as que eu tinha, enrolei vergonhosamente sobre as que eu não dominava e incluí argumentos que eu confiava – pelo que disse o colega – serem do gosto da professora. Foi uma manobra desonesta, a minha parte de pequena corrupção, mas com a qual, no entanto, eu aprendi mais um pouco sobre o pensamento, o discurso e as relações humanas. Mais do que eu esperava, eu tirei dez na referida prova, com destaque e comentários a quê? À defesa do que lhe era caro, não ao conhecimento da teoria, que era incompleto.

Incorporando um pouco mais a cada dia o papel de escritora, eu me sinto no dever de recusar a utilização desse tipo de recurso e emburrecer ainda mais a rede de informações instantâneas que é a internet, porque as coisas se espalham rápido demais para serem bem analisadas, especialmente se reforçar o que pensam os mais idiotas.  Assim, compartilho a percepção que tenho na esperança de multiplicar reflexões e pedir que pense, especialmente quando você gosta de um texto, se ele realmente é um texto honesto ou se merece crítica, apesar do tanto que você possa gostar de ver suas ideias defendidas nele. Ficar atento às falhas somente do que discordamos é fácil e desonesto. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Distinções básicas

Em meio às trocas humanas temos contato com todo tipo de argumentação. Algumas são mais elaboradas, outras planas; algumas lógicas, outras emotivas; outras ainda concentram sua força na autoridade de um título, de uma posição hierárquica ou de um saber restrito a um pequeno grupo ou a uma mente insana. O conhecimento humano passa por momentos de calmaria e tensão, e é geralmente nos últimos que muita coisa se mexe dentro de nós, seja no caminho oposto ou similar àqueles das pessoas com quem discutimos.
Um campo fértil para as discussões acaloradas e a mais variada gama de argumentos é a metafísica. Ateísmo, religião, secularismo, crença, fé, moral, comportamento… Muito se mistura nesse campo e, infelizmente, é fácil perder a linha de raciocínio e escorregar para outra questão, para um “mas isso me lembra”, para um “mas e no caso de…”; isso quando a discussão não perde qualidade e apela para o “seu grupo faz isso” ou o “quem pensa como você é…”.
Sem querer entrar em exemplos particulares ou na própria polêmica da metafísica, proponho algumas distinções que considero importantes no discurso de qualquer um. Distinções que com certeza não esgotarão o assunto, mas que têm o potencial de fazer avançar a discussão para além de algumas confusões conceituais.
Falo, é claro, de uma posição particular, de um ponto de vista, e não tenho a pretensão de me colocar acima das paixões humanas e fazer uma análise desprovida de opinião. Sem ela, talvez nem me importasse com esse tipo de distinção. Seguem algumas delas, para um começo de conversa:
1ª Convencer-se de um argumento é uma coisa. Achar que por isso todas as outras pessoas têm que se convencer é outra. Existem tantas possibilidades de raciocínio ao longo da vida de um indivíduo que é simplesmente impossível esperar coerência absoluta até mesmo do mais disciplinado grupo, muito menos entre todos os indivíduos.
2ª A existência de deuses, de céu e inferno, ou de vida após a morte é uma coisa. A existência do mundo, das pessoas, de sentimentos e de valores é outra. Se a sua crença diz que todas essas coisas estão ligadas, argumente, mas não espere que isso seja um pressuposto de todos os envolvidos na conversa.
3ª Passar por um processo reflexivo e chegar a uma conclusão é uma coisa. Achar que quem não chegou à mesma conclusão que você é alguém que não pensa é outra. Talvez falte a você mesmo o tipo de reflexão que o outro teve; talvez a sua reflexão seja uma etapa de outra maior; ou talvez o outro precise de mais tempo para chegar ao que você chegou.
4ª Concordar com a moral defendida por um líder é uma coisa. Permitir que esse líder determine todas as suas decisões sem filtro, mesmo que prejudiquem outras pessoas, por causa daquela primeira concordância, é outra coisa.
5ª Existe o deus cristão e existem deuses hindus, zoroastras, xintoístas, umbandistas e tantos outros. Se você quer discutir algum deus, faça a gentileza de deixar claro de qual está falando. Cabe lembrar também que existem religiões teístas e não teístas, assim como pessoas sem religião.
6ª Apreciar os ensinamentos de um livro, de um autor ou de uma determinada filosofia é uma coisa. Defendê-los cegamente sem ao menos ler criticamente seu conteúdo e sem permitir que outros o façam é outra. Se para a sua religião um livro é sagrado, você pode esperar que ele seja referência máxima de quem é da sua religião, não de todas as pessoas.
7ª Balizar o seu modo de vida em um guia de conduta é uma coisa. Achar que a evocação a esse guia serve de argumento absoluto em qualquer discussão, mesmo com quem não tem a mesma referência que você, é outra.
8ª O que você quer que seja a verdade é uma coisa. A verdade, se é que existe uma, não necessariamente é uma concretização do que você deseja. Assim, não é porque “tem que ser” que é; não é porque “tem que fazer sentido” que faz; não é porque “tem que ter uma ligação” que tem.
9ª Celebrar e conviver com pessoas que acreditam na mesma coisa que você é uma coisa. Oprimir, excluir e fazer sentir-se mal quem pensa diferente é outra. Sabemos que isso pode ser feito de forma explícita ou implícita, por meio de ações ou omissões, e que ambas as formas são opressivas.
10ª Esperar respeito à sua visão de mundo é uma coisa. Achar que ninguém deve reagir quando você tenta enfiar-lhes o que pensa goela abaixo é outra. Cada um de nós escolhe as suas batalhas, o quanto estamos dispostos e emocionalmente preparados a enfrentar. Quando sua emoção sobrepujar a sua capacidade de analisar a coerência do que está fazendo, pense mais um pouco antes de continuar.

Existem outras distinções, e tenho certeza que de muitas eu nem me dei conta ainda. O que acredito é que podemos evoluir bastante nas nossas reflexões e debates se fizermos o esforço de identificá-las.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Sentimentalismo partidário

O que dá pra concluir de quem compartilha opiniões políticas sem conferir dados, sem fazer análise, sem ter o mínimo de postura crítica com relação ao que compartilha? Eu concluo que a opinião é puro sentimento, sem objetividade. Falou bem do meu partido, compartilho. Falou mal, ignoro ou rechaço. Números? Os do meu partido são sempre melhores. Os do seu partido mostram catástrofes!
Isso é o que eu chamaria de sentimentalismo partidário. Inimigo da razão e desinteressado pelo progresso, seu único objetivo é mostrar que eu estava certa desde o princípio e que todos os que discordam de mim são uns retardados. Se esse tipo de sentimento não pode ser explicado por dados reais (apenas os manipulados são aceitáveis, para se encaixarem nos parâmetros do primeiro parágrafo), de onde ele vem?
Minhas hipóteses mais fortes:
1.    Preconceito. Se um partido está associado a pessoas que eu desprezo, logo eu tenho que desprezar o partido, especialmente se não é politicamente correto dizer que eu desprezo essas pessoas. Exemplo: o empresário americano Wayne LaPierre declarou recentemente que Hillary Clinton na presidência não seria aceitável porque com Obama, os Estados Unidos já tiveram a sua cota de “demograficamente simbólico”. Com a declaração, a mídia identificou o preconceito: contra negros e mulheres. Mas isso foi apenas porque ele deixou o preconceito escapar. Se tivesse o hábito de muitos de seus compatriotas (e milhões de brasileiros) tentaria achar razões para desprezar Obama e Hillary sem deixar claros seus preconceitos. Como? Selecionaria tudo o que desabona os seus partidos, mesmo que baseado em dados falsos, e ressaltaria os números fantasiosos que favorecem a oposição. Até alguém conferir, a mentira já foi espalhada e o seu preconceito já foi defendido.
2.    Identificação de classe. Esse não se afasta muito do preconceito, mas tem uma nuance interessante: o da classe como situação econômica, mas também como ideologia, desvinculada da primeira. Exemplo: o cidadão sofre para pagar o aluguel, mas acredita que um dia na vida vai ser patrão e esfregar na cara dos coleguinhas que alcançou o sucesso. Geralmente, quem vislumbra pertencer a uma classe tende a concordar com ela – até porque acha que com isso pode ganhar aliados entre os que já chegaram lá. Assim, mesmo que seja um assalariado pouco qualificado, ele vai apoiar o partido que tira direitos dos trabalhadores, pois estará agindo como se fizesse parte da classe dos patrões. Pode ser que ele nem entenda os argumentos a respeito de incentivos fiscais, mas o fato de que o cara de terno e gravata o escreveu faz com que ele lhe dê crédito, mesmo que o trabalho dele mesmo vá ser prejudicado com isso.
3.         Pressão social. “Nooooosssa!!! Fulano vai votar em tal partiiiiido!!!! Não acrediiiiito!!! Como ele é ignoraaaante!!!” – risos. Geralmente, quem fala não faz a mínima ideia dos impactos das medidas socioeconômicas que o tal partido implanta, mas aprendeu que falar mal dele é uma moeda de status, e reproduz. Se alguém está em uma roda dominada por essas pessoas, se sentirá acuado e não expressará opinião contrária, pois convenhamos, não há argumento pró-partido X que salve a amizade com quem fala “Quem vota no partido X é ridíííííículo!”. E as pessoas são carentes. Como julgar que elas queiram manter amizade com pessoas idiotas? Cada um sabe dos próprios motivos para querer ser amigo de quem não te permite pensar.
Por fim, acho que todos temos um pouquinho de sentimento envolvido no nosso posicionamento político. E, de verdade, eu respeito quem tem um sentimento por um partido de que eu não gosto, desde que fundamentado. No entanto, quando esse sentimento é fruto de preconceito, identidade de classe ou pressão social, sinto muito amigo. Ridííííííículo é você.


segunda-feira, 6 de abril de 2015

A medida do metrô

Polícia, bomba, âncora do jornal ridicularizando... Já vi muita coisa acontecer diante de manifestações na capital paulista. Aí vejo na internet as pessoas comentando uma coisa diferente: que o metrô liberou as catracas para manifestantes. Isso é definitivamente novo. Não resisti a pedir à própria empresa uma confirmação e perguntar, é claro, a razão. Afinal, já vi algumas manifestações em que os organizadores pediram liberação de catraca e não obtiveram. Recebi a seguinte resposta:
“Em atenção a sua manifestação, esclarecemos que a liberação dos bloqueios na estação Trianon-Masp foi adotada como estratégia momentânea para garantir a segurança no local, dada a condição de risco decorrente do grande acúmulo de usuários na área do mezanino.”
Costumo ter facilidade para compreender decisões estratégicas, mas esta me pegou. Se o mezanino está lotado a ponto de comprometer a segurança dos usuários, deixar mais gente entrar no mezanino de graça garante a segurança como?
Enviei a nova dúvida ao metrô, que nunca me respondeu, apesar de ter recebido a confirmação automática de que a dúvida foi enviada e de ela estar registrada no site. De qualquer forma, me lembro bem que, quando eu morava em São Paulo, enfrentei plataformas lotadas diariamente, a ponto de funcionários do metrô terem que se deslocar ao longo da faixa amarela empurrando as pessoas para longe do vão. Casos de “usuário na via” eram frequentes, apesar de não noticiados. Ainda assim, nunca deixei de pagar passagem.

A vocês que eventualmente enfrentarem uma situação de comprometimento da segurança por lotação - que pela resposta do metrô imagino ser rara agora – sugiro que peçam gratuidade também.  

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Campanha: informação antes da opinião!


Acha que a ditadura serve pra trazer a democracia? Antes de pedi-la de volta, procure ler um livro sobre o processo político em que ela vigorou, ou veja um filme explicativo sobre o que acontecia com as liberdades das pessoas nessa época. Pode ler artigos, matérias da comissão da verdade ou mesmo material no YouTube, mas busque dados antes de concluir que é uma boa ideia. 
Acha que colocar todo mundo na cadeia pelo máximo de tempo possível em condições desumanas vai reduzir a violência? Pesquise estatísticas criminais de países que aplicam pena de morte, que têm cadeias lotadas, que têm maioridade penal diferente. Compare com países que investem na reeducação, que usam penas alternativas e que não mantém a pessoa presa por muito tempo. Use o Google. Se os dados soarem estranhos, busque pesquisas que expliquem por que eles são como são. 
Acha que quem realiza aborto é porque não tem religião, caráter ou empatia? Que a legalizãção faria com que todas as moças saíssem tendo relações desprotegidas com vários homens para abortar em uma manhã de domingo? Existem diversos relatórios sobre o perfil de quem comete aborto, suas principais razões, dúvidas, medos e consequências. Experimente buscar também pesquisas sobre o perfil de meninas que engravidam na adolescência, o ambiente familiar em que elas vivem, a moral defendida pelas famílias delas e por que elas não usaram anticoncepcionais, por exemplo. 
Acha que se uma criança foi criada por pais homossexuais ela vai se tornar homossexual e que isso vai contaminar todos os heterossexuais e levar ao extermínio da humanidade? Estude o que é a homossexualidade, desde quando ela existe, por quem foram criadas pessoas que são homossexuais, a porcentagem de homossexuais que há no mundo e a taxa de crescimento da população do planeta. Faça as contas: quantas pessoas teriam que ser homossexuais para que a existência da humanidade fosse ameaçada? Quantas pessoas que são heterossexuais tornaram-se homossexuais pelo contato com quem o é? Quantas vezes mudou gênero das pessoas por quem sentem atração a partir do momento em que conheceram alguém que tem atração pelo mesmo gênero?
Existem inúmeros exemplos, mas acho que deu pra pegar a ideia: 
Informação antes de opinião! É urgente. 

terça-feira, 31 de março de 2015

Crenças



Eu acredito que a educação pode transformar vidas.
Eu acredito que um propósito pode promover mudanças.
Eu acredito que a persistência pode nos fazer mais fortes.
Eu acredito que todos precisamos refletir sobre nossas vidas.
Eu acredito que as pessoas precisam umas das outras, 
mesmo que precisem em intensidades diferentes.
Eu acredito que sempre haverá problemas, mas que também existem muitas soluções.
Eu posso não acreditar na mesma coisa que você. 
Isso não quer dizer que eu não acredite em nada. 
E acima de tudo, eu acredito que independente da crença de cada um, cada um é muito pequeno pra afirmar que sua crença é superior às demais. 

sábado, 28 de março de 2015

Contra o aborto x contra a legalização do aborto


Parece a mesma coisa – pra quem acha que tudo o que é ilegal deixa automaticamente de ser feito. Parece simples seguir a lei em todos os seus pontos – pra quem tem uma vida bem estabelecida, com vantagens sociais acima da média e escolhas que combinam com o que o status quo aplaude.
A realidade, no entanto, é muito mais complicada. A verdade é que nunca tivemos o aborto legalizado no país, mas ainda assim um milhão mulheres realizam abortos todo ano, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, e uma boa parte morre por conta disso. Diante desse cenário, que é sim mais complexo do que o mundo ideal das discussões virtuais, existe gente pensando em como melhorar, em como mudar a sociedade, em como oferecer melhores condições de vida às mulheres.
Entre essas pessoas há as que são favoráveis à legalização do aborto, há quem pense em casos em que ele deveria ser legalizado, pensam em políticas públicas, discutem pílula do dia seguinte, educação sexual, apoio governamental à gestante, prevenção à violência... Existe muita coisa entre os que querem mudar o mundo.
Já os que não querem, mas ainda assim se preocupam com sua autoimagem em uma discussão polêmica, simplesmente ignoram a realidade e acham que ser contra a legalização do aborto é o mesmo que defender que ele nunca aconteça. Ignoram que o aborto é proibido e acontece. Ignoram que as pessoas reais vão além de seus dogmas particulares e que bater o pé e dizer “sou contra” não evita a morte de ninguém. Aliás, nem evita o aborto.
Podemos:
1. Escolher mudar o mundo e apresentar argumentos com base na realidade
2. Vestir a capa de eternos ingênuos e ficar gritando nossos dogmas em discussões acaloradas e protegidas da concretude da vida.
Nos dois casos podemos nos sentir muito bem conosco. No primeiro, com base no que deixaremos aos nossos filhos e aos filhos dos outros – de todos os nascidos, mesmo de violência, mesmo indesejados, mesmo maltratados, em termos de consequências práticas às próprias atitudes.
No segundo, fica aquele orgulho individual de ter tido um discurso moralmente bonito, e talvez de ter reprimido o pensamento daqueles que vão dar à luz crianças indesejadas – porque afinal, pensar em contracepção ou aborto é feio, e aqueles que se entregam ao desejo sexual não regulados pelas normas sociais e religiosas devem ser castigados com uma responsabilidade para qual não estão preparados. Como se criar uma pessoa fosse um castigo, e não algo que vai definir a vida de uma pessoa.

Em que caso se faz um mundo melhor?

sexta-feira, 20 de março de 2015

A realidade e os contos de fadas


Quando somos crianças aprendemos a gostar de contos de fadas, histórias de bruxas, animais falantes e dragões que terminam com uma bela lição de moral. Por mais que a história seja completamente mentirosa – e que saibamos disso – somos levados a crer que a lição de moral deve ser levada a sério. Se com as personagens fictícias aconteceu, deve acontecer conosco: com essa “lógica” aceitamos, nos encantamos e reproduzimos os famosos contos.
De uma criança é difícil pedir que use a razão para analisar o mundo real, que é muito mais complexo que as histórias infantis, e dos adultos temos medo. Temos medo de subestimar, temos medo de desrespeitar, temos medo de sermos tachados de negativistas e seguimos deixando que a maioria dos adultos ao nosso redor tire conclusões sobre a vida com base em contos de fadas.
Quem nunca viu alguém compartilhar a frase “profissionais construíram o Titanic, um amador construiu a arca”? Eu já vi, e já vi adultos com presumível capacidade de distinguir fantasia de realidade vibrarem com o que essa frase “prova”. Já vi dissertarem sobre como não é assim tão necessário ser profissional, porque afinal, Noé não foi. Só se esquecem de um detalhe: que a arca de Noé nunca existiu, e que o Titanic virou notícia por ser uma exceção, e não a regra. Porque geralmente trabalhos profissionais são sim necessários para que as coisas corram bem, porque quando um trabalho profissional dá errado, vira notícia, e – adivinhem – notícia é aquele fato extraordinário, que pela experiência ou simples bom senso ninguém espera que aconteça.* 
Ou seja: mesmo sabendo que os projetos mais confiáveis são feitos por profissionais; mesmo sabendo que a arca de Noé nunca existiu - por favor, me digam que não acreditam que todas as espécies animais conviveram em casalzinho em um barco enquanto o mundo inteiro alagou - mesmo assim priorizam a fábula ao bom senso e tentam fazer com que outros adultos moldem suas vidas a partir de metáforas infantis.
Da mesma forma, tem gente que acredita em fábulas históricas, como a ditadura que resolve problemas políticos, econômicos e morais. Vi um moço dizendo que foi à manifestação do dia 15 de março porque acredita que a ditadura daria um “reset” no sistema, começaria tudo do zero e aí então as coisas passariam a funcionar. É tão gritante a ignorância com relação à natureza humana, aos jogos de poder, à dinâmica econômica, às práticas desumanas da época da ditadura e à conjuntura em que a ditadura tanto se instalou como deixou o caminho livre para o retorno à democracia, que só acreditando em conto de fadas alguém pode achar que a ditadura daria um “reset” no sistema político.
É como aquele que não entende de sistema prisional, judiciário ou sociologia da violência, que acha que matando ou prendendo todo mundo se resolve tudo. É preguiça de pensar, que leva às soluções mais dramáticas e mais fantasiosas. Falta humildade para assumir que não se sabe do que está falando e deixar que quem entende do assunto decida.
Outra pessoa, na mesma discussão, disse que não é preciso entender de política, que basta assistir à televisão para entender que tudo vai mal e que o governo atual é o corrupto. Outra mentira. Agrada o ego de quem não tem estudo, que passa a se sentir qualificado para falar de política a partir do momento em que acredita na Globo, mas é mentira. É sim preciso entender de política para falar de corrupção. Ou pelo menos ter bom senso e perceber que ela existe em outros partidos. Entender desde quando, como, por que e como resolver vai muito além de assistir televisão, sinto muito.
Exemplos são exaustivos. Na discussão sobre o conceito de núcleo familiar promovida pelo Senado, tem gente preocupada com a possibilidade de crianças serem adotadas por casais homossexuais, mas tem gente querendo dizer que Adão e Eva devem ser considerados pelo Estado para decidir leis.

Está na hora de deixar de ter medo de desiludir adultos; está na hora de ser um pouco menos polidos-covardes e mostrar a falta de lógica nos discursos que as pessoas compartilham como verdade inquestionável; ou nunca deixaremos de ser uma sociedade de crianças grandes. Precisamos de mais adultos.

*Neste vídeo, Marcos Rolim explica um pouco de como a mídia trata casos de violência e como isso impacta na própria violência: https://www.youtube.com/watch?v=tCTGNfNsTrE

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Exorcismo

Tem gente que vai querer cutucar seus demônios mais dormentes;
que quando você não estiver dando a mínima, vai tentar fazer você se incomodar;
que quando você estiver em paz, vai tentar fazer com que se atormente;
que quando estiver tentando viver a vida, vai tentar te convencer de que melhor é ser como eles, que não conseguem se livrar dos próprios demônios e acreditam ganhar alguma coisa puxando você para a briga deles. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Medo do bom


Sempre haverá o medo do caos diante de mudanças.
Sempre, diante do novo, haverão aqueles que temerão seu chão se abrir, seus valores ruírem, seu mundo virar do avesso. O que talvez eles não saibam é que o avesso pode ser mais belo que o direito, e que abaixo do chão pode existir uma realidade que mudará seu ponto de vista sobre o mundo que antes os sustentava.
Abrir-se ao mundo assombroso do desconhecido pode mostrar maravilhas que jamais seriam do nosso conhecimento se passássemos a vida idolatrando a nossa zona de conforto.