terça-feira, 31 de março de 2015

Crenças



Eu acredito que a educação pode transformar vidas.
Eu acredito que um propósito pode promover mudanças.
Eu acredito que a persistência pode nos fazer mais fortes.
Eu acredito que todos precisamos refletir sobre nossas vidas.
Eu acredito que as pessoas precisam umas das outras, 
mesmo que precisem em intensidades diferentes.
Eu acredito que sempre haverá problemas, mas que também existem muitas soluções.
Eu posso não acreditar na mesma coisa que você. 
Isso não quer dizer que eu não acredite em nada. 
E acima de tudo, eu acredito que independente da crença de cada um, cada um é muito pequeno pra afirmar que sua crença é superior às demais. 

sábado, 28 de março de 2015

Contra o aborto x contra a legalização do aborto


Parece a mesma coisa – pra quem acha que tudo o que é ilegal deixa automaticamente de ser feito. Parece simples seguir a lei em todos os seus pontos – pra quem tem uma vida bem estabelecida, com vantagens sociais acima da média e escolhas que combinam com o que o status quo aplaude.
A realidade, no entanto, é muito mais complicada. A verdade é que nunca tivemos o aborto legalizado no país, mas ainda assim um milhão mulheres realizam abortos todo ano, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, e uma boa parte morre por conta disso. Diante desse cenário, que é sim mais complexo do que o mundo ideal das discussões virtuais, existe gente pensando em como melhorar, em como mudar a sociedade, em como oferecer melhores condições de vida às mulheres.
Entre essas pessoas há as que são favoráveis à legalização do aborto, há quem pense em casos em que ele deveria ser legalizado, pensam em políticas públicas, discutem pílula do dia seguinte, educação sexual, apoio governamental à gestante, prevenção à violência... Existe muita coisa entre os que querem mudar o mundo.
Já os que não querem, mas ainda assim se preocupam com sua autoimagem em uma discussão polêmica, simplesmente ignoram a realidade e acham que ser contra a legalização do aborto é o mesmo que defender que ele nunca aconteça. Ignoram que o aborto é proibido e acontece. Ignoram que as pessoas reais vão além de seus dogmas particulares e que bater o pé e dizer “sou contra” não evita a morte de ninguém. Aliás, nem evita o aborto.
Podemos:
1. Escolher mudar o mundo e apresentar argumentos com base na realidade
2. Vestir a capa de eternos ingênuos e ficar gritando nossos dogmas em discussões acaloradas e protegidas da concretude da vida.
Nos dois casos podemos nos sentir muito bem conosco. No primeiro, com base no que deixaremos aos nossos filhos e aos filhos dos outros – de todos os nascidos, mesmo de violência, mesmo indesejados, mesmo maltratados, em termos de consequências práticas às próprias atitudes.
No segundo, fica aquele orgulho individual de ter tido um discurso moralmente bonito, e talvez de ter reprimido o pensamento daqueles que vão dar à luz crianças indesejadas – porque afinal, pensar em contracepção ou aborto é feio, e aqueles que se entregam ao desejo sexual não regulados pelas normas sociais e religiosas devem ser castigados com uma responsabilidade para qual não estão preparados. Como se criar uma pessoa fosse um castigo, e não algo que vai definir a vida de uma pessoa.

Em que caso se faz um mundo melhor?

sexta-feira, 20 de março de 2015

A realidade e os contos de fadas


Quando somos crianças aprendemos a gostar de contos de fadas, histórias de bruxas, animais falantes e dragões que terminam com uma bela lição de moral. Por mais que a história seja completamente mentirosa – e que saibamos disso – somos levados a crer que a lição de moral deve ser levada a sério. Se com as personagens fictícias aconteceu, deve acontecer conosco: com essa “lógica” aceitamos, nos encantamos e reproduzimos os famosos contos.
De uma criança é difícil pedir que use a razão para analisar o mundo real, que é muito mais complexo que as histórias infantis, e dos adultos temos medo. Temos medo de subestimar, temos medo de desrespeitar, temos medo de sermos tachados de negativistas e seguimos deixando que a maioria dos adultos ao nosso redor tire conclusões sobre a vida com base em contos de fadas.
Quem nunca viu alguém compartilhar a frase “profissionais construíram o Titanic, um amador construiu a arca”? Eu já vi, e já vi adultos com presumível capacidade de distinguir fantasia de realidade vibrarem com o que essa frase “prova”. Já vi dissertarem sobre como não é assim tão necessário ser profissional, porque afinal, Noé não foi. Só se esquecem de um detalhe: que a arca de Noé nunca existiu, e que o Titanic virou notícia por ser uma exceção, e não a regra. Porque geralmente trabalhos profissionais são sim necessários para que as coisas corram bem, porque quando um trabalho profissional dá errado, vira notícia, e – adivinhem – notícia é aquele fato extraordinário, que pela experiência ou simples bom senso ninguém espera que aconteça.* 
Ou seja: mesmo sabendo que os projetos mais confiáveis são feitos por profissionais; mesmo sabendo que a arca de Noé nunca existiu - por favor, me digam que não acreditam que todas as espécies animais conviveram em casalzinho em um barco enquanto o mundo inteiro alagou - mesmo assim priorizam a fábula ao bom senso e tentam fazer com que outros adultos moldem suas vidas a partir de metáforas infantis.
Da mesma forma, tem gente que acredita em fábulas históricas, como a ditadura que resolve problemas políticos, econômicos e morais. Vi um moço dizendo que foi à manifestação do dia 15 de março porque acredita que a ditadura daria um “reset” no sistema, começaria tudo do zero e aí então as coisas passariam a funcionar. É tão gritante a ignorância com relação à natureza humana, aos jogos de poder, à dinâmica econômica, às práticas desumanas da época da ditadura e à conjuntura em que a ditadura tanto se instalou como deixou o caminho livre para o retorno à democracia, que só acreditando em conto de fadas alguém pode achar que a ditadura daria um “reset” no sistema político.
É como aquele que não entende de sistema prisional, judiciário ou sociologia da violência, que acha que matando ou prendendo todo mundo se resolve tudo. É preguiça de pensar, que leva às soluções mais dramáticas e mais fantasiosas. Falta humildade para assumir que não se sabe do que está falando e deixar que quem entende do assunto decida.
Outra pessoa, na mesma discussão, disse que não é preciso entender de política, que basta assistir à televisão para entender que tudo vai mal e que o governo atual é o corrupto. Outra mentira. Agrada o ego de quem não tem estudo, que passa a se sentir qualificado para falar de política a partir do momento em que acredita na Globo, mas é mentira. É sim preciso entender de política para falar de corrupção. Ou pelo menos ter bom senso e perceber que ela existe em outros partidos. Entender desde quando, como, por que e como resolver vai muito além de assistir televisão, sinto muito.
Exemplos são exaustivos. Na discussão sobre o conceito de núcleo familiar promovida pelo Senado, tem gente preocupada com a possibilidade de crianças serem adotadas por casais homossexuais, mas tem gente querendo dizer que Adão e Eva devem ser considerados pelo Estado para decidir leis.

Está na hora de deixar de ter medo de desiludir adultos; está na hora de ser um pouco menos polidos-covardes e mostrar a falta de lógica nos discursos que as pessoas compartilham como verdade inquestionável; ou nunca deixaremos de ser uma sociedade de crianças grandes. Precisamos de mais adultos.

*Neste vídeo, Marcos Rolim explica um pouco de como a mídia trata casos de violência e como isso impacta na própria violência: https://www.youtube.com/watch?v=tCTGNfNsTrE