sábado, 28 de março de 2015

Contra o aborto x contra a legalização do aborto


Parece a mesma coisa – pra quem acha que tudo o que é ilegal deixa automaticamente de ser feito. Parece simples seguir a lei em todos os seus pontos – pra quem tem uma vida bem estabelecida, com vantagens sociais acima da média e escolhas que combinam com o que o status quo aplaude.
A realidade, no entanto, é muito mais complicada. A verdade é que nunca tivemos o aborto legalizado no país, mas ainda assim um milhão mulheres realizam abortos todo ano, segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, e uma boa parte morre por conta disso. Diante desse cenário, que é sim mais complexo do que o mundo ideal das discussões virtuais, existe gente pensando em como melhorar, em como mudar a sociedade, em como oferecer melhores condições de vida às mulheres.
Entre essas pessoas há as que são favoráveis à legalização do aborto, há quem pense em casos em que ele deveria ser legalizado, pensam em políticas públicas, discutem pílula do dia seguinte, educação sexual, apoio governamental à gestante, prevenção à violência... Existe muita coisa entre os que querem mudar o mundo.
Já os que não querem, mas ainda assim se preocupam com sua autoimagem em uma discussão polêmica, simplesmente ignoram a realidade e acham que ser contra a legalização do aborto é o mesmo que defender que ele nunca aconteça. Ignoram que o aborto é proibido e acontece. Ignoram que as pessoas reais vão além de seus dogmas particulares e que bater o pé e dizer “sou contra” não evita a morte de ninguém. Aliás, nem evita o aborto.
Podemos:
1. Escolher mudar o mundo e apresentar argumentos com base na realidade
2. Vestir a capa de eternos ingênuos e ficar gritando nossos dogmas em discussões acaloradas e protegidas da concretude da vida.
Nos dois casos podemos nos sentir muito bem conosco. No primeiro, com base no que deixaremos aos nossos filhos e aos filhos dos outros – de todos os nascidos, mesmo de violência, mesmo indesejados, mesmo maltratados, em termos de consequências práticas às próprias atitudes.
No segundo, fica aquele orgulho individual de ter tido um discurso moralmente bonito, e talvez de ter reprimido o pensamento daqueles que vão dar à luz crianças indesejadas – porque afinal, pensar em contracepção ou aborto é feio, e aqueles que se entregam ao desejo sexual não regulados pelas normas sociais e religiosas devem ser castigados com uma responsabilidade para qual não estão preparados. Como se criar uma pessoa fosse um castigo, e não algo que vai definir a vida de uma pessoa.

Em que caso se faz um mundo melhor?

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