segunda-feira, 11 de maio de 2015

Carpe Diem

Existem muitas mensagens motivacionais com a promessa de mudar a sua vida a partir daquele instante. Se isso é verdade, por que será que elas continuam sendo procuradas, geralmente pelas mesmas pessoas? Não bastaria lermos um texto transformador e começarmos a agir diferente a partir daí?
Eu acho que não é isso o que acontece. As pessoas são lembradas e relembradas da importância de promover mudanças na própria vida e mesmo assim raramente essas mudanças são implementadas. Sei que cada um tem um estilo diferente, mas na esperança de ajudar uma parte de quem me lê, compartilho o que funciona para mim.
Eu sou uma pessoa que funciona bem com rotinas, planos e sistemas. Para mim, um dia bem aproveitado é fruto da incorporação de bons hábitos, o que gosto de fazer pouco a pouco. Não faz muito tempo, em uma aula de francês, começamos a discutir sobre ecologia. Como era de se esperar, houve grande concordância sobre a importância de preservar o planeta. Mas quando o foco passou a ser os hábitos de cada um, não foi difícil perceber que essa importância mora no nível do discurso e passeia de vez em quando pela prática.
No discurso eu não me considerei uma pessoa muito ecológica, porque conheço quem seja bem mais do que eu. Na hora dos exemplos, meus hábitos impressionaram os colegas. Não uso carro há cerca de quatro anos, faço minhas compras em mercados próximos de casa, dou preferência a produtos locais, separo todo o lixo para reciclagem, levo minha própria sacola ao mercado e outras coisinhas mais.
Colocando assim parece muito, e isso só no que tange à ecologia. Se entrar em temas como línguas ou desenvolvimento profissional vai muita linha pra contar metade da história. Bem, depois da aula o professor, também surpreso, me perguntou qual era o segredo. O meu é mudar meus hábitos aos poucos. Não foi um texto motivacional que mudou a minha vida de um dia para o outro. Adotei uma coisa por vez, até porque em geral elas pedem um tempo de adaptação.
Um dia adotei o hábito de colocar uma sacola na bolsa, assim não precisaria mais pedir saquinhos no mercado. Parece bobo, mas eu demorei a me adaptar até a isso. Às vezes guardava as compras e esquecia de colocar a sacola de volta na bolsa; às vezes escolhia uma sacola ruim, que ocupava muito espaço e atrapalhava tudo; outras vezes levava menos do que o necessário pra carregar o que eu precisava comprar. Com o tempo achei a minha medida, e quando a coisa passa a fazer parte do seu modo de vida, não é mais um sacrifício.
Separar material reciclável deu trabalho também. Quando fui morar com o meu marido, ele colocava na mochila, percorria metrô, ônibus e um caminho a pé para levar até a lixeira perto do trabalho, que era a única que ele conhecia. Isso fazia com que, às vezes, desse desânimo pra continuar levando. Pesquisei no site da prefeitura onde tinha coletas de recicláveis e descobri, surpresa, que a nossa rua era uma rota da coleta seletiva. Só que como ninguém no condomínio colocava reciclável na lixeira, o caminhão tinha deixado de parar ali.
Conversei com a administração do condomínio sobre os dias em que a coleta seletiva passava e recomendei avisar os vizinhos. No início teve resistência: “Ah, as pessoas não ligam pra isso. Elas vão começar a colocar em dia errado, vai dar confusão.” Insisti. Liguei pra prefeitura e falei que o caminhão podia parar ali porque ia começar a ter coisa pra recolher. Comecei a levar o meu reciclável no dia em que o caminhão passava. Fui xingada por uma vizinha, que achou que eu estava colocando lixo comum no dia errado. Expliquei que não, que esse era o dia da coleta seletiva e que eu só estava colocando material reciclável. Ouvi mais xingamentos depois disso, mas continuei. Falamos na reunião de condomínio. Alguns anos depois, não cabe mais material reciclável nas lixeiras, e o caminhão para ali sempre, porque todo mundo está fazendo isso.

Deu trabalho? Um pouco. Mas eu escolhi dedicar um pouco da minha vida a fazer algo de que eu me orgulhe. Quando se escolhe uma coisa para dar atenção até virar um hábito, é possível. Uma vez incorporado, ele abre caminho a outros, e quando você vê, está surpreendendo quem faz discursos sobre a sua prática.  

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Dois pesos

Desde que decidi me dedicar à escrita fiquei com o olhar mais atento ao modo como as pessoas reagem a textos, à linguagem usada, aos seus elementos e formas. Comecei a postar textos com linguagens diferentes em diferentes meios e observar a reação das pessoas que liam. Com isso, aprendo sobre o que chama a atenção, o que interessa e o que perde leitores.
Tem um aprendizado, no entanto, que eu notei que precisa ser compartilhado, muito mais do que utilizado: um sem-número de pessoas adora textos que corroboram a própria visão de mundo, mesmo que não sejam verdade.
Pessoas geralmente superatentas a detalhes lógicos e à veracidade das informações acabam passando por cima de qualquer cuidado quando a publicação em questão reforça o que elas pensam. Conscientemente ou não, adotam uma postura dupla: se discordam da ideia central de um texto, dissecam, analisam, problematizam e apontam até erros de português do autor. Se concordam com o argumento central, ignoram falácias, maus argumentos e deixam passar até mesmo informação falsa.
Já vi gente que em uma linha pede para não generalizarem as críticas aos seus correligionários, e na linha seguinte afirma que “os jornais estão dizendo” algo que leu em uma revista tendenciosa. Muitos gostam de brincar com números: se um grupo fez uma manifestação de que a pessoa discorda, ela seleciona as contagens de institutos de pesquisa que mostraram menor participação. Se a manifestação foi por algo de que ela gosta, ela acusa o mesmo instituto de pesquisa de vendido, manipulado, mentiroso ou o que for para desacreditar a sua contagem.
Para não dizer que isso é coisa de gente incauta, lembro de um episódio emblemático na faculdade em que eu estudava. No último ano do curso eu já não estava tão empolgada, nem com tanto tempo disponível para ler tudo o que era obrigatório para o acompanhamento das disciplinas. Assistia às aulas e lia parte da bibliografia. Um dia, chegou a prova de uma disciplina de Ciência Política, área bastante objetiva, mas que também conta com partidários de correntes e ideologias nas cátedras. A prova envolvia teorias de dez autores que deveríamos ter lido até o momento. Eu havia lido seis. Pouco antes da prova começar, no entanto, um amigo me disse qual era a tendência política da professora: qual era a linha de pensamento que ela aplaudia e que questões ela considerava importantes dentro daquele tema.
Como muitas, era uma prova dissertativa, com bastante espaço para argumentação. No entanto, era necessário conhecer as teorias para argumentar propriamente. Argumentei com as que eu tinha, enrolei vergonhosamente sobre as que eu não dominava e incluí argumentos que eu confiava – pelo que disse o colega – serem do gosto da professora. Foi uma manobra desonesta, a minha parte de pequena corrupção, mas com a qual, no entanto, eu aprendi mais um pouco sobre o pensamento, o discurso e as relações humanas. Mais do que eu esperava, eu tirei dez na referida prova, com destaque e comentários a quê? À defesa do que lhe era caro, não ao conhecimento da teoria, que era incompleto.

Incorporando um pouco mais a cada dia o papel de escritora, eu me sinto no dever de recusar a utilização desse tipo de recurso e emburrecer ainda mais a rede de informações instantâneas que é a internet, porque as coisas se espalham rápido demais para serem bem analisadas, especialmente se reforçar o que pensam os mais idiotas.  Assim, compartilho a percepção que tenho na esperança de multiplicar reflexões e pedir que pense, especialmente quando você gosta de um texto, se ele realmente é um texto honesto ou se merece crítica, apesar do tanto que você possa gostar de ver suas ideias defendidas nele. Ficar atento às falhas somente do que discordamos é fácil e desonesto. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Distinções básicas

Em meio às trocas humanas temos contato com todo tipo de argumentação. Algumas são mais elaboradas, outras planas; algumas lógicas, outras emotivas; outras ainda concentram sua força na autoridade de um título, de uma posição hierárquica ou de um saber restrito a um pequeno grupo ou a uma mente insana. O conhecimento humano passa por momentos de calmaria e tensão, e é geralmente nos últimos que muita coisa se mexe dentro de nós, seja no caminho oposto ou similar àqueles das pessoas com quem discutimos.
Um campo fértil para as discussões acaloradas e a mais variada gama de argumentos é a metafísica. Ateísmo, religião, secularismo, crença, fé, moral, comportamento… Muito se mistura nesse campo e, infelizmente, é fácil perder a linha de raciocínio e escorregar para outra questão, para um “mas isso me lembra”, para um “mas e no caso de…”; isso quando a discussão não perde qualidade e apela para o “seu grupo faz isso” ou o “quem pensa como você é…”.
Sem querer entrar em exemplos particulares ou na própria polêmica da metafísica, proponho algumas distinções que considero importantes no discurso de qualquer um. Distinções que com certeza não esgotarão o assunto, mas que têm o potencial de fazer avançar a discussão para além de algumas confusões conceituais.
Falo, é claro, de uma posição particular, de um ponto de vista, e não tenho a pretensão de me colocar acima das paixões humanas e fazer uma análise desprovida de opinião. Sem ela, talvez nem me importasse com esse tipo de distinção. Seguem algumas delas, para um começo de conversa:
1ª Convencer-se de um argumento é uma coisa. Achar que por isso todas as outras pessoas têm que se convencer é outra. Existem tantas possibilidades de raciocínio ao longo da vida de um indivíduo que é simplesmente impossível esperar coerência absoluta até mesmo do mais disciplinado grupo, muito menos entre todos os indivíduos.
2ª A existência de deuses, de céu e inferno, ou de vida após a morte é uma coisa. A existência do mundo, das pessoas, de sentimentos e de valores é outra. Se a sua crença diz que todas essas coisas estão ligadas, argumente, mas não espere que isso seja um pressuposto de todos os envolvidos na conversa.
3ª Passar por um processo reflexivo e chegar a uma conclusão é uma coisa. Achar que quem não chegou à mesma conclusão que você é alguém que não pensa é outra. Talvez falte a você mesmo o tipo de reflexão que o outro teve; talvez a sua reflexão seja uma etapa de outra maior; ou talvez o outro precise de mais tempo para chegar ao que você chegou.
4ª Concordar com a moral defendida por um líder é uma coisa. Permitir que esse líder determine todas as suas decisões sem filtro, mesmo que prejudiquem outras pessoas, por causa daquela primeira concordância, é outra coisa.
5ª Existe o deus cristão e existem deuses hindus, zoroastras, xintoístas, umbandistas e tantos outros. Se você quer discutir algum deus, faça a gentileza de deixar claro de qual está falando. Cabe lembrar também que existem religiões teístas e não teístas, assim como pessoas sem religião.
6ª Apreciar os ensinamentos de um livro, de um autor ou de uma determinada filosofia é uma coisa. Defendê-los cegamente sem ao menos ler criticamente seu conteúdo e sem permitir que outros o façam é outra. Se para a sua religião um livro é sagrado, você pode esperar que ele seja referência máxima de quem é da sua religião, não de todas as pessoas.
7ª Balizar o seu modo de vida em um guia de conduta é uma coisa. Achar que a evocação a esse guia serve de argumento absoluto em qualquer discussão, mesmo com quem não tem a mesma referência que você, é outra.
8ª O que você quer que seja a verdade é uma coisa. A verdade, se é que existe uma, não necessariamente é uma concretização do que você deseja. Assim, não é porque “tem que ser” que é; não é porque “tem que fazer sentido” que faz; não é porque “tem que ter uma ligação” que tem.
9ª Celebrar e conviver com pessoas que acreditam na mesma coisa que você é uma coisa. Oprimir, excluir e fazer sentir-se mal quem pensa diferente é outra. Sabemos que isso pode ser feito de forma explícita ou implícita, por meio de ações ou omissões, e que ambas as formas são opressivas.
10ª Esperar respeito à sua visão de mundo é uma coisa. Achar que ninguém deve reagir quando você tenta enfiar-lhes o que pensa goela abaixo é outra. Cada um de nós escolhe as suas batalhas, o quanto estamos dispostos e emocionalmente preparados a enfrentar. Quando sua emoção sobrepujar a sua capacidade de analisar a coerência do que está fazendo, pense mais um pouco antes de continuar.

Existem outras distinções, e tenho certeza que de muitas eu nem me dei conta ainda. O que acredito é que podemos evoluir bastante nas nossas reflexões e debates se fizermos o esforço de identificá-las.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Sentimentalismo partidário

O que dá pra concluir de quem compartilha opiniões políticas sem conferir dados, sem fazer análise, sem ter o mínimo de postura crítica com relação ao que compartilha? Eu concluo que a opinião é puro sentimento, sem objetividade. Falou bem do meu partido, compartilho. Falou mal, ignoro ou rechaço. Números? Os do meu partido são sempre melhores. Os do seu partido mostram catástrofes!
Isso é o que eu chamaria de sentimentalismo partidário. Inimigo da razão e desinteressado pelo progresso, seu único objetivo é mostrar que eu estava certa desde o princípio e que todos os que discordam de mim são uns retardados. Se esse tipo de sentimento não pode ser explicado por dados reais (apenas os manipulados são aceitáveis, para se encaixarem nos parâmetros do primeiro parágrafo), de onde ele vem?
Minhas hipóteses mais fortes:
1.    Preconceito. Se um partido está associado a pessoas que eu desprezo, logo eu tenho que desprezar o partido, especialmente se não é politicamente correto dizer que eu desprezo essas pessoas. Exemplo: o empresário americano Wayne LaPierre declarou recentemente que Hillary Clinton na presidência não seria aceitável porque com Obama, os Estados Unidos já tiveram a sua cota de “demograficamente simbólico”. Com a declaração, a mídia identificou o preconceito: contra negros e mulheres. Mas isso foi apenas porque ele deixou o preconceito escapar. Se tivesse o hábito de muitos de seus compatriotas (e milhões de brasileiros) tentaria achar razões para desprezar Obama e Hillary sem deixar claros seus preconceitos. Como? Selecionaria tudo o que desabona os seus partidos, mesmo que baseado em dados falsos, e ressaltaria os números fantasiosos que favorecem a oposição. Até alguém conferir, a mentira já foi espalhada e o seu preconceito já foi defendido.
2.    Identificação de classe. Esse não se afasta muito do preconceito, mas tem uma nuance interessante: o da classe como situação econômica, mas também como ideologia, desvinculada da primeira. Exemplo: o cidadão sofre para pagar o aluguel, mas acredita que um dia na vida vai ser patrão e esfregar na cara dos coleguinhas que alcançou o sucesso. Geralmente, quem vislumbra pertencer a uma classe tende a concordar com ela – até porque acha que com isso pode ganhar aliados entre os que já chegaram lá. Assim, mesmo que seja um assalariado pouco qualificado, ele vai apoiar o partido que tira direitos dos trabalhadores, pois estará agindo como se fizesse parte da classe dos patrões. Pode ser que ele nem entenda os argumentos a respeito de incentivos fiscais, mas o fato de que o cara de terno e gravata o escreveu faz com que ele lhe dê crédito, mesmo que o trabalho dele mesmo vá ser prejudicado com isso.
3.         Pressão social. “Nooooosssa!!! Fulano vai votar em tal partiiiiido!!!! Não acrediiiiito!!! Como ele é ignoraaaante!!!” – risos. Geralmente, quem fala não faz a mínima ideia dos impactos das medidas socioeconômicas que o tal partido implanta, mas aprendeu que falar mal dele é uma moeda de status, e reproduz. Se alguém está em uma roda dominada por essas pessoas, se sentirá acuado e não expressará opinião contrária, pois convenhamos, não há argumento pró-partido X que salve a amizade com quem fala “Quem vota no partido X é ridíííííículo!”. E as pessoas são carentes. Como julgar que elas queiram manter amizade com pessoas idiotas? Cada um sabe dos próprios motivos para querer ser amigo de quem não te permite pensar.
Por fim, acho que todos temos um pouquinho de sentimento envolvido no nosso posicionamento político. E, de verdade, eu respeito quem tem um sentimento por um partido de que eu não gosto, desde que fundamentado. No entanto, quando esse sentimento é fruto de preconceito, identidade de classe ou pressão social, sinto muito amigo. Ridííííííículo é você.