segunda-feira, 4 de maio de 2015

Sentimentalismo partidário

O que dá pra concluir de quem compartilha opiniões políticas sem conferir dados, sem fazer análise, sem ter o mínimo de postura crítica com relação ao que compartilha? Eu concluo que a opinião é puro sentimento, sem objetividade. Falou bem do meu partido, compartilho. Falou mal, ignoro ou rechaço. Números? Os do meu partido são sempre melhores. Os do seu partido mostram catástrofes!
Isso é o que eu chamaria de sentimentalismo partidário. Inimigo da razão e desinteressado pelo progresso, seu único objetivo é mostrar que eu estava certa desde o princípio e que todos os que discordam de mim são uns retardados. Se esse tipo de sentimento não pode ser explicado por dados reais (apenas os manipulados são aceitáveis, para se encaixarem nos parâmetros do primeiro parágrafo), de onde ele vem?
Minhas hipóteses mais fortes:
1.    Preconceito. Se um partido está associado a pessoas que eu desprezo, logo eu tenho que desprezar o partido, especialmente se não é politicamente correto dizer que eu desprezo essas pessoas. Exemplo: o empresário americano Wayne LaPierre declarou recentemente que Hillary Clinton na presidência não seria aceitável porque com Obama, os Estados Unidos já tiveram a sua cota de “demograficamente simbólico”. Com a declaração, a mídia identificou o preconceito: contra negros e mulheres. Mas isso foi apenas porque ele deixou o preconceito escapar. Se tivesse o hábito de muitos de seus compatriotas (e milhões de brasileiros) tentaria achar razões para desprezar Obama e Hillary sem deixar claros seus preconceitos. Como? Selecionaria tudo o que desabona os seus partidos, mesmo que baseado em dados falsos, e ressaltaria os números fantasiosos que favorecem a oposição. Até alguém conferir, a mentira já foi espalhada e o seu preconceito já foi defendido.
2.    Identificação de classe. Esse não se afasta muito do preconceito, mas tem uma nuance interessante: o da classe como situação econômica, mas também como ideologia, desvinculada da primeira. Exemplo: o cidadão sofre para pagar o aluguel, mas acredita que um dia na vida vai ser patrão e esfregar na cara dos coleguinhas que alcançou o sucesso. Geralmente, quem vislumbra pertencer a uma classe tende a concordar com ela – até porque acha que com isso pode ganhar aliados entre os que já chegaram lá. Assim, mesmo que seja um assalariado pouco qualificado, ele vai apoiar o partido que tira direitos dos trabalhadores, pois estará agindo como se fizesse parte da classe dos patrões. Pode ser que ele nem entenda os argumentos a respeito de incentivos fiscais, mas o fato de que o cara de terno e gravata o escreveu faz com que ele lhe dê crédito, mesmo que o trabalho dele mesmo vá ser prejudicado com isso.
3.         Pressão social. “Nooooosssa!!! Fulano vai votar em tal partiiiiido!!!! Não acrediiiiito!!! Como ele é ignoraaaante!!!” – risos. Geralmente, quem fala não faz a mínima ideia dos impactos das medidas socioeconômicas que o tal partido implanta, mas aprendeu que falar mal dele é uma moeda de status, e reproduz. Se alguém está em uma roda dominada por essas pessoas, se sentirá acuado e não expressará opinião contrária, pois convenhamos, não há argumento pró-partido X que salve a amizade com quem fala “Quem vota no partido X é ridíííííículo!”. E as pessoas são carentes. Como julgar que elas queiram manter amizade com pessoas idiotas? Cada um sabe dos próprios motivos para querer ser amigo de quem não te permite pensar.
Por fim, acho que todos temos um pouquinho de sentimento envolvido no nosso posicionamento político. E, de verdade, eu respeito quem tem um sentimento por um partido de que eu não gosto, desde que fundamentado. No entanto, quando esse sentimento é fruto de preconceito, identidade de classe ou pressão social, sinto muito amigo. Ridííííííículo é você.


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