domingo, 30 de agosto de 2015

O bolo

Às vezes as coisas começam a dar errado uma atrás da outra e eu fico emocionalmente abalada, como se minha vida estivesse uma bagunça. Eu sei que tem muita gente com problemas mais graves que eu, mas saber disso não ajuda a sentir satisfação no fim de um dia de tentativas frustradas. No fim das contas, cada um de nós tem sua gama de problemas, mais ou menos graves, e tem que lidar com eles, independente do que os outros possam estar passando em comparação.
Hoje, no entanto, teve uma cena que me fez relativizar minhas sensações. Estávamos voltando da praia em um ônibus lotado. No meio do ônibus começou uma confusão. Um senhor bêbado, aparentemente morador de rua, estava se irritando com as pessoas ao redor porque ele tinha ganhado um bolo, e com a lotação do ônibus, o bolo dele poderia ser estragado.
Ficou evidente que aquele bolo tinha um valor tamanho para aquele senhor que ele estava muito estressado pela possibilidade de perdê-lo. Era um desses bolos de padaria, parecia de fubá com passas ou algo parecido, redondo, dentro de uma embalagem plástica. Depois de balbuciar algumas coisas que fizeram com que todo o ônibus se voltasse para ele, ele decidiu sair. O motorista até ficou parado mais tempo no ponto para esperar que ele conseguisse a proeza – como eu disse, estava lotado – de sair.
Ele passou se equilibrando da bebedeira, em meio aos passageiros impacientes, olhando firmemente para o bolo, que tinha que ser preservado. Finalmente ele saiu. E foi o passo para descer do ônibus o passo de misericórdia: o bolo caiu, a embalagem se abriu e tudo se espatifou pelo asfalto. Uma rápida olhada ao redor revelou que todos os passageiros do ônibus estavam olhando para o bolo, e para o homem que não sabia o que fazer diante dele. O motorista não saiu. Tudo parou diante daquela cena, daquela esperança particular que acabava de ser frustrada em público, com plateia. Todos permaneceram olhando sem dizer uma palavra enquanto o homem de cerca de setenta anos (talvez menos, mas já castigado) andava de um lado para o outro olhando para o bolo, e depois quando ele sentou na sarjeta e recolheu os pedaços do chão, colocando tudo de volta na embalagem plástica.
Parecia que tinham piedade. Quando, por algum motivo, o senhor fez menção de entrar no ônibus novamente, no entanto, alguns protestaram e pediram para o motorista fechar a porta e sair. Era como se a cena fosse comovente o suficiente para chamar os comerciais, não para exigir mais envolvimento ainda. Era como se, de repente, o incômodo que aquele senhor causasse fosse mais importante do que qualquer frustração que ele tinha, e que ele tivesse que continuar vivendo a sua angústia sozinho.

Não sei quanto aos outros passageiros, afinal, há muitos que como eu, nada disseram. Quanto a mim, levei o senhor na minha cabeça até o fim do dia. Nada fiz, não sei o que poderia fazer para melhorar o dia daquela pessoa que estava tentando salvar as coisas mais simples sem conseguir, um tropeço atrás do outro, sabe-se lá há quanto tempo. Hoje eu não consegui achar que os meus problemas são tão difíceis. 

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