terça-feira, 19 de setembro de 2017

Certo e errado

Houve uma época em que eu pensava poder fazer tudo certo. O resultado mais claro é que eu reprimi o que eu achava errado em mim, porque não queria assumir que havia algo errado - e que sempre haverá, por mais que nos esforcemos em ser certos. Acontece que a repressão costuma se comportar como uma mola: quanto mais você oprime, mais violentamente ela tenta voltar ao seu estado original. O que eu sentia de moralmente condenável ganhou cores, complexidades, fez um labirinto dentro de mim que resultou em reações vis, respostas azedas e distribuição de julgamentos cruéis por uma pessoa que - vejam que coisa - só estava tentando fazer tudo certo.
Demorou, mas eu consegui me libertar de boa parte dos meus padrões de normalidade, frequentemente auto impostos. Cada vez que eu consegui assumir minhas partes “erradas” eu consegui lidar melhor com elas, entendê-las, trabalhá-las e, finalmente, não deixar que elas me deixassem agir de forma tão prejudicial quanto deixaram no passado.
Hoje muita gente me condena por dizer o que eu penso. Na verdade, me condenam por pensar o que eu quero e não ter vergonha disso. Me condenam por não seguir a sua moral, a sua religião, a sua posição política e outras normas que eu me forçava a seguir antes, com sérias consequências ao meu bem estar mental e, consequentemente, ao dos que me rodeavam.
Eu sei que se eu continuasse nessa política de boa menina que concorda com tudo o que pensam, eu infernizaria a vida de todos com amargura mal trabalhada. Ainda assim, muitos preferem direcionar sua amargura em julgamentos a quem eu sou hoje do que lidar com seus próprios demônios e parar de impor falsas normalidades.


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Terceirização de soluções



Não sei se devido à baixa qualidade de tantas instituições de ensino ou devido à preguiça de se especializar, é cada vez mais frequente formadores de opinião e detentores de poder apontarem e proporem saídas simplistas para problemas muito complexos. Além de tentarem identificar desesperadamente causas simples para os problemas (pobreza=crime; jogos de vídeo game=agressividade; falta de religião=imoralidade) instituições importantes como a escola, o trabalho e as cadeias têm sido usadas como instrumento prioritário de propostas amadoras.
A escola é alvo de propostas intermináveis de adição de conteúdo na grade curricular. A despeito da formação dos professores, da estrutura da sala de aula, dos métodos de ensino ou avaliação, cada proponente acha que incluindo uma disciplina a mais na grade estará promovendo uma educação de qualidade.
É obrigatório incluir pessoas com deficiência em sala de aula; mas não necessariamente instruir os professores a lidar com elas. É obrigatório o ensino da cultura africana, mas pede-se isso de professores que não tiveram esse conteúdo durante a própria formação e não têm estímulo para se preparar. É opcional o ensino religioso; mas não só não há prevenção contra a opressão e o proselitismo, como os próprios representantes do Estado brigam para que a sua visão religiosa prevaleça sobre as demais.
Alguns dos muitos exemplos de propostas que focam na inclusão de disciplinas em um sistema que mal funciona com as disciplinas atuais:
  • PLC 784-2015: Incluirá a disciplina de educação no trânsito no currículo escolar da educação infantil, ensino fundamental e ensino médio.
  • PLC 623-2015: Incluirá no currículo escolar as disciplinas Educação Política, Noções de direitos básicos, Educação ambiental e Primeiros socorros.
  • PLC 7155-2014: Incluirá o tema “Educação Financeira” na disciplina Matemática.
  • PLC – 15 / 2011: Incluirá a disciplina Educação Ambiental no ensino fundamental e médio das escolas públicas e privadas.
  • PLC – 7450 / 2010: Incluirá no currículo da educação básica a disciplina “Leitura e Educação para as Mídias”, para oferecer aos estudantes a possibilidade de análise crítica do que a mídia expõe, seja pelos canais de TV e rádio ou por veículos impressos.
  • PLC - 256 / 2011: Incluirá os Direitos Humanos no currículo da educação básica com o objetivo de torná-los conhecidos pelos estudantes brasileiros.
  • PLS – 254 / 2010: Incluirá no currículo de educação do ensino médio o destaque para os direitos e garantias fundamentais inscritos na Constituição Federal
  • PLC 5960-2013: Incluirá as disciplinas Organização Social e Política do Brasil, e Educação Moral e Cívica no currículo escolar do ensino fundamental e ensino médio.
  • PLC – 424 / 2011: Incluirá no ensino fundamental e médio noções de educação alimentar e nutricional.
A escola está carente de soluções pedagógicas; de reformulação em sua orientação para a vida, o mercado, a academia ou qualquer outra linha que decida trabalhar; está carente de gente que formule propostas para problemas identificados em estudos sérios; carente de coerência de quem as dirige, de preocupação de quem é responsável por elas, de um direcionamento mais sábio do que o vestibular ou a meta de passar o máximo de alunos possível sem critérios adequados. Ainda assim o que se vê são apenas adições a uma grade curricular há muito questionável.
Empresas também têm sido alvo dessa simplificação generalizada. A elas são atribuídas obrigações com o intuito de promover mudanças sociais sem garantia nenhuma de contrapartida governamental para que essas mudanças sejam impulsionadas. No caso de empresas que prestam serviços para o poder público, são necessárias tantas certidões, regularidades e documentos comprobatórios de critérios instituídos progressivamente pelo poder público que, na prática, as licitações ficam nas mãos de raras pessoas que se concentram mais em se adaptar ao esquema da documentação do que na qualidade dos serviços prestados. Basta pesquisar processos públicos de licitações e enumerar a quantidade de requisitos exigidos para concorrer nelas. Não há como pensar em melhoria da qualidade dos produtos e serviços públicos se forem cerceadas as possibilidades de bons profissionais trabalharem para o governo, em nome da terceirização de “soluções” para problemas fiscais, que na prática não solucionam nada, pois a maioria das empresas continua não cumprindo os critérios estabelecidos e vendendo seus produtos e serviços a outros que os comprem.
Empresas privadas são obrigadas a cumprir a Lei de Cotas, mas os próprios agentes do governo não sabem como funciona o BPC, a reabilitação ou a aprendizagem de pessoas com deficiência – medidas que, em tese, incentivam as pessoas com deficiência a procurarem emprego. Diante de críticas sobre a baixa contratação registrada, invariavelmente é a empresa privada que é a grande culpada, com seus preconceitos e sua falta de eficiência em cumprir a lei, quando as próprias equipes governamentais não conseguem nem fazer a fiscalização ou ao menos apresentar dados confiáveis sobre o assunto. Recomendo a qualquer um tentar comparar os dados da RAIS com os do IBGE ou mesmo do Seade e tentar tirar alguma conclusão a respeito da inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho – isso depois de passar pelo processo de conseguir esses dados, é claro.
 As empresas devem registrar a nota fiscal com o CPF do consumidor, e o consumidor deve conferir e denunciar quando a empresa não o faz, para que cumpra sua obrigação. A secretaria de finanças (do estado de São Paulo, pelo menos) não responde a denúncias do consumidor no prazo necessário, sabe-se lá se fiscaliza as empresas que não registram o CPF e se isenta de qualquer responsabilidade em fazer a sua parte.[1]
O sistema judiciário é outro exemplo gritante. Enquanto processos levam anos para serem lidos, analisados e julgados, enquanto há pessoas que ficam presas por mais tempo do que sua sentença condena e não há um plano de reintegração social efetivo que previna crimes futuros quando a pessoa sai da prisão, nossos representantes só sabem propor leis que coloquem mais gente na prisão. Alguns (entre muitos) exemplos:
 PLC 7776/2010 – Penalizará o ato de consumir bebida alcoólica em local público, com prisão de dez dias a um mês ou pagamento de multa.
PLS – 288/2011 - Aumentará a pena máxima do crime de pichação de 1 para 4 anos de prisão, e tornará obrigatória a identificação dos compradores de tubos de pulverização de tinta, para monitorar o uso responsável e legal deste produto.
PLS 347/2011 – Proibirá a divulgação de pesquisas contratadas por candidatos e partidos políticos, e punirá com prisão, de 6 meses a 1 ano, e multa de 500 mil a 1 milhão de reais aquele que divulgar pesquisas de opinião com fraude.
PLC 1573/2011 – Criará o crime de “Bullyin”, punindo com prisão de 1 a 4 anos, aquele que ofender repetidamente a integridade moral ou física de outra pessoa, com o objetivo de causar constrangimento público, estabelecendo pena de prestação de serviços à comunidade ao adolescente que praticar este crime.
PLC 2701/2011 - Classificará como crime a atividade de flanelinha (guardador de carro) com prisão de 4 anos.
PLC 1905/2011 - Fará com que o usuário de drogas seja internado obrigatoriamente pelo prazo indicado no laudo médico, aplicando pena de prisão por até 30 dias do usuário que se recusar a cumprir a determinação judicial.
PLS 350/2011 - Punirá com prisão, de 1 a 6 meses, ou multa o bancário que causar prejuízos ou transtornos ao cliente do banco como, por exemplo, cobrar por serviços não solicitados ou deixar o cliente esperando por longo tempo.
O clamor pela redução da maioridade penal diante de crimes cometidos por adolescentes entra na mesma lógica. Basta colocar na prisão, o problema acaba. Vai ter mais crimes de outros adolescentes porque ninguém tem capacidade de trabalhar sobre as causas? Coloca os outros na prisão também. Vai ter gente mais nova cometendo crimes pra tentar escapar da prisão? Diminui de novo e prende criança. Essa é a lógica dos gênios da política brasileira. Acham que as soluções para os problemas sociais são simples e se dispõem a se afundar em uma guerra eterna contra crimes cujas causas não são a falta de prisões. Sua concepção de Estado ideal é aquela em que todos que não fazem o que eles pensam estão presos. Se levarmos em conta a quantidade e a rotatividade de pessoas que propõem isso todos os anos, troquemos as cidades por grandes penitenciárias!
Não sei se isso se restringe ao nosso país, mas é fato que por aqui existe uma ambição enorme de muita gente que alcança o poder de fazer com que os outros trabalhem e lavar as mãos com relação à própria responsabilidade de fazer a realidade mudar. Mesmo em pequena escala, é comum ver pessoas que galgaram alguma posição entenderem que ganharam o direito de fazer menos por isso, de mandar que outros façam. O poder, que deveria significar a capacidade de fazer as coisas acontecerem, ganha o sentido de um título que dá a quem o detém uma bela desculpa pra não fazer nada e cobrar de quem está abaixo, ou pelo menos em outro lugar, que o faça - de preferência sem reclamar, de preferência engolindo toda a frustração de não ter poder em um sistema podre, sob o risco de ser preso ou censurado.
Não tenho resposta a todos os problemas sociais brasileiros, mas ao menos uma coisa eu sei: escolas, empresas e cadeias não são caixinhas mágicas em que se colocam ideias imaturas, misturam-se pessoas e saem futuros brilhantes.


[1] Posso afirmá-lo porque eu mesma tive o trabalho de acompanhar, denunciar e ser jogada de um serviço a outro quando solicitei um retorno, com comprovações em forma de e-mails e formulários eletrônicos.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Caridade ou justiça



Quando você realmente se importa com o sofrimento alheio mais do que com a sua própria imagem de alma bondosa, você não se contenta com a caridade pura e simples. Quando você quer que alguém tenha uma vida melhor, você acha pouco dar-lhe ajuda financeira uma vez ou outra; acha pouco dar-lhe um casaco quando está frio; quer entender por que a pessoa não consegue sair daquela situação; quer entender por que é tão fácil para algumas pessoas terem tudo na vida desde o nascimento e tão difícil para tantas outras conseguirem o básico durante a vida toda. 
Quando você se preocupa, você não vota em qualquer pessoa pelo discurso, você não fica em paz enquanto não estudar um pouco mais o sistema socioeconômico, você não acha bonito que uma pessoa ache um prato de comida ou um pouco de conforto coisa de outro mundo. 
A filantropia é o primeiro passo, não o fim em si. A filantropia é o primeiro ato de ajuda de quem, depois, vai tentar contribuir com um mundo melhor. Quem se contenta com ela é porque não está focado no bem de que o outro precisa, mas apenas no bem psicológico para si próprio com o ato da ajuda. 
Quem realmente se importa espera pelo dia em que a caridade não mais exista, por não ser mais necessária; pelo dia em que as pessoas são recompensadas por seus esforços e têm condições mínimas de vida garantidas. É claro que enquanto este dia não chega, a filantropia é necessária. No entanto, ela não é a solução para a injustiça social. Aliás, enquanto uma parte da população tiver condições de separar aquilo o que não lhe interessa para fazer caridade à outra parte, não existe justiça – existe distribuição de uma pequena parte do acúmulo.
As regras em que vivemos não são justas, e na ausência de um sistema político e econômico que respeite a dignidade humana, aqueles que separam uma parte do que lhes sobra para dividir com outros são um paliativo para o sofrimento. Mas não queira me convencer que um empresário que extrai lucro dos baixos salários de seus empregados, mas dá sopa aos pobres duas vezes por ano é santo. Não queira me convencer que uma pessoa que recebeu investimentos milionários dos pais para conseguir educar-se e empregar-se bem é mais merecedor do que quem não tinha o que comer na hora do recreio.
A caridade é linda em meio a um mundo de miséria, por isso eu torço para o dia em que não exista mais caridade no mundo.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A escolha de lutar

Houve momentos em que lutei pelos meus direitos e ganhei muitos desafetos, especialmente entre aqueles que acham que direitos são conquistados por inércia. Nunca me arrependi dessas épocas.
Houve momentos em que me acovardei, com medo das consequências de pedir o que me era devido. Nunca consegui deixar de lamentar o mal que eu ajudei a perpetuar quando fiz isso. 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Verdades antigas

A publicação do meu primeiro livro demorou muito. Todo o processo de revisão, diagramação, capa, registro e demais burocracias levou quase um ano. E no momento de publicar meu livro eu já não tinha certeza de que queria fazê-lo. Minhas ideias haviam mudado e eu já não gostava muito dele.
Nessa hora, um bom amigo me disse uma coisa que eu sinto ser necessário lembrar às vezes: não é porque ficou velho pra você que não vai ser bom pra outras pessoas. Ele disse isso porque um texto em particular, contido nesse livro, mudou um ponto de vista dele. Concordei, publiquei, divulguei e com o tempo também enterrei. Apesar de estar sempre à venda, não é algo de que eu faça propaganda.
Enfim, o ponto aqui não é o livro. É a ideia: na vida de quem se interessa por conhecimento existem muitos livros, muitas teorias, muitos pontos de vista. Às vezes você vai de um extremo a outro porque estudou um pouco mais sobre um assunto. E não raro eu vejo gente que por já ter passado por essa mudança, desrespeita o momento do outro. Não raro eu vejo gente que, porque questionou uma determinada teoria, passa a chamar de burros todos os que ainda estão no processo de conhecê-la.
Não existe uma verdade final no conhecimento científico. A ciência é humilde: ela admite sua falibilidade. Ela aceita que uma teoria defendida a duras penas seja substituída por outra diante de evidências novas. E mesmo assim, encontramos no meio científico pessoas que se comportam como se fossem líderes religiosos defendendo a sua verdade do momento como se fosse a última.
Eu admiro a ciência, a filosofia e o conhecimento, mas há algo a respeito de muita gente que está imersa nesse mundo que afasta as pessoas: arrogância. E não é a arrogância de acreditar no método científico sobre o sobrenatural; isso é um posicionamento. É a arrogância de, a partir do momento em que entra em contato com uma nova verdade, passar a humilhar e desencorajar o pensamento de pessoas que estão flertando com outra.
Quantas vezes não foi necessário voltar a uma teoria anteriormente abandonada? Quantos livros é necessário ler para ter certeza de qualquer coisa?
Por isso, àqueles que amam a ciência, convido a refletirem também sobre a beleza de cada estágio que a constitui. A beleza de desenvolver uma teoria para depois destruí-la. A beleza de permitir-se avaliar diferentes pensamentos. A beleza de não ser dono da verdade, posição que não é reclamada nem pela própria ciência. 
Eu não gosto do meu primeiro livro. Mas o respeito. Eu não sou mais religiosa, mas já fui e entendo como é ser. Eu já tive posicionamentos políticos diferentes, com relação a problemáticas diferentes. Não é aos meus trinta e poucos anos que eu vou subir num pedestal e dizer que eu alcancei o ápice da sabedoria sobre aqueles que se posicionam de outra forma. E desconfio que não será assim nem com cinquenta, nem com oitenta anos.

A verdade que eu defendo hoje pode ficar velha daqui a pouco. Isso não vai me impedir de defendê-la, até porque geralmente é necessário fazê-lo pra aprender. Mas eu nunca vou chamar de burro quem, a partir do seu próprio caminho de conhecimento, pensar diferente de mim.

sábado, 12 de agosto de 2017

Briga de gangues

Mesmo morando na França por três anos, sempre mantive contato com o que as pessoas pensam e discutem no Brasil, especialmente pelo facebook. Alguns posts provocam boas reflexões, eu concordando ou não com a opinião que defendem. Uma boa parte deles, no entanto, dá um profundo desânimo com relação à maturidade do debate político. E antes que você diga “também, esses esquerdopatas”, ou “deve ser tudo coxinha”, saiba que é exatamente disso que eu estou falando.
Diante de qualquer coisa que se fale, a tendência é a mesma: acusar alguém, geralmente um partido ou tendência ideológica. Tem discursos rasos e preconceituosos, mas boa parte deles é bem lapidada, pensada, palavras escolhidas com cuidado pra dar mais credibilidade. Por trás de todos, a mesma coisa: “O que eu penso é certo e quem concorda comigo é legal. Quem pensa diferente é errado e deve ser humilhado.” Construir soluções coletivas parece coisa de outro mundo nesse contexto. 
Mesmo quando as pessoas compartilham um sentimento comum com relação a algo, fazem associações que garantam que elas sejam classificadas sempre no mesmo grupo. Por exemplo: a difundida rejeição ao Temer. Um grupo o associa ao PT, outro ao golpe contra o PT. Como ele é uma figura dúbia, fica fácil rejeitá-lo e manter-se fiel ao próprio rótulo, mas com relação a outros assuntos menos flexíveis gasta-se uma energia absurda pra manter a dualidade. Ora é necessário fazer associações não tão fáceis, ora justificar o que o próprio grupo faz de errado e apontar o dedo sobre o outro. Em todo caso, uma vez instalada, essa chave de pensamento permeia a leitura de tudo, que às vezes nem é sobre política. É uma constante afirmação de identidade no combate a outra, que não pode jamais ser traída – afinal, o quanto humilhamos quem tem a outra identidade, não é mesmo?
Senti que ao longo dos anos aumentou a quantidade de gente que olha para os fatos em vez de simplesmente transformar uma opinião em verdade. Ainda assim, o olhar sobre os fatos é distorcido. Antes de ter opinião sobre qualquer acontecimento, a pessoa confere quem está envolvido. Se é A, é horrível; se é B, deve ter uma boa explicação. Pra dizer se a economia vai bem ou mal, escolhe-se os indicadores que confirmam o que se achava antes de ver qualquer número.  Pra julgar se uma reforma é positiva ou negativa, não importam experiências passadas ou de outros países, importa apenas quem propôs. Se é de alguém do meu agrado, vai dar certo; se é de quem eu não gosto, vai ser um desastre. Os mais cautelosos até leem o projeto – e pinçam aquilo que sustenta seu ponto de vista, distorcendo e interpretando mal o texto, por mais que em outros contextos sejam bons leitores.
Eu discordo de estereótipos que colocam tudo na Europa como superior e tudo no Brasil como coisa de vira-latas, mas nesse ponto a comparação é inevitável. O que notamos aqui é que, apesar de existirem tendências ideológicas e partidárias, a linha de discurso socialmente aceitável é bem diferente. Nem todo mundo é tão ponderado, assim com nem todo mundo no Brasil é tão enviesado, mas não dá pra ignorar que existe um tipo de discurso que define o tom do debate e cria uma zona de conforto para que as pessoas continuem reproduzindo a mesma fala. O sentimento de desajuste não se dá por não deixar claro de que gangue se faz parte. Uma das coisas que mais vi criticarem nas conversas de grupo que tivemos foi justamente a incapacidade de criticar o próprio grupo. Apoiar alguém incondicionalmente é sinal de burrice. Se você realmente se importa com o que o seu grupo faz, você tem que ser capaz de identificar problemas e apontá-los, pra que corrijam.
É claro que criticam também os outros grupos, mas tem que ser objetivo e jamais deixar de acreditar que o seu grupo também tem problemas a serem corrigidos. Isso quebra essa coisa de “nós os perfeitos x eles os burros” que ilude tanta gente no Brasil. Nessa chave de pensamento, informação é uma coisa que tem que ser analisada e debatida, não apenas usada pra enfeitar ou sujar nomes. A partir do entendimento e mesmo do posicionamento ideológico com relação a um assunto, discute-se quão bom ou ruim é o que está sendo proposto a respeito, não a partir de quem propôs.
Mas confesso que não conversamos tão frequentemente com as pessoas a respeito de política. Nossa maior referência do modo de pensar coletivo é a mídia, que vemos todo dia e, honestamente, parece seguir a mesma linha de discurso das conversas cara a cara. Não é de se estranhar, dado que muita gente ajusta a própria chave de argumentação a partir das notícias. Comparando a mídia / internet dos dois países, as diferenças são bem evidentes. Uma comparação simplificada: 
Debate sobre educação na França: revisão da carga horária.
Debate sobre educação no Brasil: como o partido X quebrou a educação.
Debate sobre economia na França: vantagens e desvantagens da União Europeia.
Debate sobre economia no Brasil: como o partido Y quebrou a economia.
Debate sobre eleições na França: propostas de combate ao desemprego.
Debate sobre eleições no Brasil: quem vota em fulano é burro. 
Existem diferentes níveis intelectuais de discurso, mas o fundo é o mesmo. A mensagem que se quer passar, com gifs ou textões, é a mesma. Passa longe de cutucar a natureza dos problemas – eles são apenas suporte para que se cutuque a reputação de alguém.
Tenho a impressão de que a população brasileira está muito distante de conquistar um papel no rumo do país, pois mesmo as manifestações mais massivas são por (ou principalmente contra) times, não para que as coisas melhorem. É quase unânime a opinião de que todos os grandes partidos são corruptos, e ainda assim eles têm legiões de defensores que nada ganham com isso. É sempre “todos são corruptos, mas nada se compara a… [coloque aqui a legenda que você tem como demoníaca]”.
Durante as eleições na França teve gente que rejeitou partidos, mas isso vem acompanhado de argumentos. Mais do que isso, o posicionamento pode mudar! Não existe um compromisso em defender sempre o mesmo grupo se esse grupo não faz por merecer. Nenhuma legenda é sagrada, nenhum partido é a representação do demônio na Terra. No Brasil, isso beira à superstição, como se fosse pecado enxergar algo de bom em um partido que eu concluí que é ruim, como se fosse fraqueza ver algo de ruim em quem eu defendo.
Quando Manuel Vals passou à força uma medida que feria os princípios da base eleitoral dele, ele perdeu a base. Não conseguiu nem ganhar as primárias para disputar as eleições. No Brasil, teria sempre um grupo disposto a amenizar o que ele fez, ou ao menos tentar tirar o foco dele, arrumando motivos para que olhassem para os defeitos de outro candidato, comparando, vendo quem é mais podre. Quando denunciou-se que François Fillon deu cargos à própria família sem que eles trabalhassem, canais de diferentes tendências expuseram o caso, acompanharam a investigação, ouviram os dois lados da questão e, sinceramente, não os percebi encobrindo o que aconteceu. Foram até na cidade do sujeito, falar com quem sempre o apoiou e – pasmem – pessoas que gostavam dele achavam que ele tinha que ser punido!
No Brasil, temos políticos completamente blindados pela mídia, que nunca têm seus nomes em manchetes de jornal, mesmo que sejam investigados e condenados. Outros ganham destaque ao menor sinal de acusação, e na falta delas, fabrica-se. Os jornalistas tomam partido do início ao fim das matérias. A notícia vira sessão de rechaço contra um grupo ou de justificação do que outro faz. Revistas endemonizam e endeusam pessoas, redes de televisão tocam música dramática para apresentar informações distorcidas. E o público faz a mesma coisa nas suas pequenas mídias. Não tem nem sutileza na escolha de quem favorecer ou prejudicar, e todo mundo percebe isso – no grupo de que não gostam, pois quando é no próprio, jogam debaixo do tapete.
Diante disso dá vontade de manter-se a milhares de quilômetros de distância, mas a verdade é morar longe não faz com que deixemos de ser brasileiros e de nos importar com o país. Nunca deixou de me dar tristeza ver como as coisas são feitas, mesmo quando achei que poderia morar aqui pro resto da vida. As pessoas que eu amo estão no Brasil, eu me identifico com os brasileiros, voltarei a morar no Brasil e gostaria muito que o país amadurecesse. 
Aí você me diz: mas se eu sair da briga, eu perco. Se eu não fizer o que eu estou fazendo, o outro grupo ganha. Verdade. Se você quiser dedicar a sua vida a tentar ganhar essa briga, não pode sair dela. A pergunta que eu coloco é: quem vai ganhar isso? Será que alguém do outro grupo vai um dia acreditar em alguma coisa do que você diz, sendo que você tem os mesmos vícios? Será que um dia vão acordar e dizer “Nossa, é mesmo! Você distorceu fatos, omitiu eventos, exagerou nas coisas que dizia sobre mim, mas na verdade só estava querendo salvar o país! Agora eu entendo!”
É óbvio que não. A não ser que exista um compromisso em analisar criticamente tudo o que é apresentado, independente da tendência ideológica, não há credibilidade à vista.  A não ser que se desconstrua discursos viciados e se tente construir debates bem fundamentados, vai ser argumento ruim contra argumento ruim, não levando a nada além de momentos de raiva e euforia.
Analisar as coisas com atenção dá trabalho. Exige consultar sites oficiais e ler informações a despeito do que a mídia apresenta como análise, porque ela é a mais viciada de todas. Exige questionar, ser chato e persistir a despeito da quantidade de vezes que não der em nada. Não tem tempo ou cabeça pra fazer isso com relação a tudo? Escolhe algo que lhe seja caro, algo que lhe motive a dar a devida atenção, a ter compromisso com a verdade. Vale muito mais a pena focar em um assunto e discutir direito do que posar de gênio sobre todo tipo de tema sem mudar nada.
Tem quem tenha questionado o movimento passe livre quando fizeram grandes manifestações contra o aumento do preço da passagem, dizendo que era “só por 20 centavos”. A verdade é que esse grupo vinha trabalhando há anos a questão do direito ao transporte, com um longo e cansativo trabalho de formiguinha e, por questões que se aproximam mais de contexto do que de poder, teve nessas manifestações um ponto alto. Esse é o tipo de militância que eu respeito: defender uma causa profunda e persistentemente, independente dos partidos envolvidos. Infelizmente, o que veio na carona das manifestações foi uma explosão de opiniões mal fundamentadas pra defender times. Essa é uma das coisas a despeito das quais os reais militantes continuam lutando.
Na briga de gangues os assuntos restam mal analisados, mal trabalhados e abandonados a quem redigir e apresentar um projeto qualquer. A massa pega o projeto, destrincha o que pode ser usado pra brigar e segue batendo boca enquanto as coisas continuam sendo decididas apesar dela. Pergunto: qual é a importância de ganhar essa briga? Qual é a importância de se identificar com uma corrente ideológica sem trabalhar para que pelo menos um dos princípios que a definem seja transformado em política pública? Qual é o sentido de ganhar dezenas de discussões de facebook e deixar que o dinheiro público seja mal usado, às vezes na própria empresa em que se trabalha?

Tenho profundo respeito por associações e movimentos que têm um foco e uma luta. Eu mesma não posso me vangloriar da minha trajetória particular. Sempre estive mais concentrada nas minhas questões particulares, por mais que leia planos de governo, cobre vereadores e encha o saco da administração municipal (de qualquer partido) pra que faça o seu trabalho. Democracia e inclusão são duas questões que me são caras, e eu já fiz contato com candidatos de partidos antagônicos em nome delas. Não tenho problema nenhum em elogiar ou criticar nenhum deles, porque meu compromisso é com meus ideais, não com nomes, e espero que meus amigos sejam capazes de me criticar com base em ideias, não em rótulos. Mas se vier querer discutir comigo que partido X ou Y é deus ou diabo, não perca seu tempo, sou ateia.   

domingo, 6 de agosto de 2017

"O cidadão" não vota direito, eu sim.
"O cidadão" não tem consciência, eu tenho.
"O cidadão" não faz nada além de criticar os outros, eu faço.
Se ninguém achar e mandar esse cidadão pra fora do Brasil, é melhor começarmos a ser mais objetivos no que dizemos e mais coerentes no que fazemos.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

offline

Ninguém curtia aquela moça, que não se expunha para opinião.
Muitos não entendiam como podia ser feliz sem buscar aprovação.
Era festa sem foto, conquista sem post, amor sem postagem com declaração.
Tudo isso parecia uma vida estranha àqueles que não concebem viver sem dar satisfação.

sábado, 22 de julho de 2017

Anestésicos mentais

Expressões negativas para calar o pensamento:
"pare de perguntar tanto", "pra quê saber disso?", "você vai acabar virando um chato".
Expressões positivas para calar o pensamento:
"tudo vai dar certo, não se preocupe", "confie que no final a resposta surgirá", "basta querer".

E se ousássemos pensar?

terça-feira, 11 de julho de 2017

Sol

E um dia alguém apresentou-lhe o sol. Você ficou maravilhada com aquele brilho e beleza. Quis fazer um sol também. Pegou uma tocha dada por alguém que amava o sol como você  e marchou rumo à construção de uma grande chama, que nos aquecesse mais e iluminasse mais, por estar mais perto.
E quando a noite chegou, você viu quão importantes eram as chamas, cada uma delas. E o dia voltou, e a noite, e o dia... E você viu que as tochas eram tochas e o sol era o sol. Decepcionada pela distância do seu sonho, esqueceu o valor do fogo e até se acostumou com a noite, sabendo que seria alternada pelo dia e que você poderia até tirar proveito disso, descansando.

Mas as tochas permaneceram, e você achou bom. Alguém inventou a luz elétrica e você aproveitou. E de repente você se viu acostumada com a ideia de que existem noites e dias, tochas e sonhadores e construtores de luz, e de que o sol é um astro sempre presente na sua vida. Um astro no céu. E você se viu acostumada com o mundo, sem querer segurar uma tocha, sem querer mudar o mundo. Sem querer. 

sábado, 1 de julho de 2017

Metáforas

Vendo a política brasileira temos a sensação de que, ao viver na França, somos um casal sozinho em liberdade vendo nossa família e amigos sequestrados para toda a vida por pessoas que vão ficar fazendo teatro midiático enquanto roubam seus direitos e recursos. E além de sustentar um espetáculo de mal gosto, ainda tem gente que toma partido por um ou outro sequestrador.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Carta a uma pessoa honesta

Durante a vida você vai encontrar muitas pessoas que conquistam sucesso injustamente e tantas outras com talento que não conseguem se promover.
Vai ver frustrações de partir o coração e injustiças de dar raiva.

Em alguns momentos será necessário simplesmente parar de olhar para a (in)justça do mundo e tentar o seu melhor para alcançar os seus sonhos, sabendo que não há garantia nenhuma de que você conseguirá, mas que pra conseguir é preciso tentar, e que se der certo, você tem todo o direito de usufruir disso, pois neste mundo, até a justa recompensa pelo seu esforço é um privilégio. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Publica-te

Publica-te e liberta-te do mundo tortuoso dos que se entregam ao que escrevem sem dar a mínima ao que quer que isso represente, deixando as palavras fluírem vagarosas, vigorosas como quando nasceram. Pareciam gritar antes de serem paridas, atormentar antes de serem organizadas no papel e se transformarem finalmente em um monte de palavras que agora parecem tão comuns.
Deixe que saiam correndo peladas, sem a vergonha que lhe colocam as pessoas com seus tapas de crítica afiada no amolador das experiências e opiniões particulares.
De que vale abandonar o mundo dramático em que reconheces a si mesmo em prol de uma tranquilidade mórbida, em que não se perca nem nada se ganhe, mas fica só tentando identificar um caco de passado angustiante entre espelhos perfeitos e falsos, feitos para exposição?
Publica-te e arrisca perder contato com o submundo dos poetas que teimam em serem eles mesmos a despeito da publicidade bem comportada e com contrato assinado. Põe na rua o teu drama, que por mais infantil que seja, quando publicado é a chave que abre a corrente de sentimentos e pensamentos que jorram sobre papel ou qualquer meio capaz de absorver palavras rebeladas contra as boas normas do que vai ser lido por seus críticos mais sem paixão.
Terás sim que podar as arestas no limite da sua coragem de autoexposição. Terás que limpar o sangue escorrido ao redor da obra, longe da vista dos passantes. Mas isso nunca vai te impedir de sangrar de novo, de sentir de novo genuinamente a emoção dos escritores descomprometidos com o público. Se abrires mão do público, no entanto, saberás sempre metade da história. A metade que mais aparenta dor, mas que é a mais acomodada; a que parece guardar tesouros, mas nunca foi avaliada. Arrisca-te a ser ridicularizado e desfaz algumas fantasias que podem estar te prendendo em um mundo de autoimolação.
Mas nunca esqueça, depois de sair a público, de voltar de vez em quando a jogar-se ao vento em letras perdidas, em pensamentos. Só assim as conexões com outros pensamentos bastardos se fazem poderosas. Só assim nos arremessa de novo ao fundo de que sentimos querer sair sem deixar de admirar a beleza.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Evite deixar que o trabalho consuma de você mais do que lhe revigora. Quando você estiver consumido, pode ter certeza de que a maioria das pessoas vai dizer que você não é bom o suficiente, não que a empresa não soube te valorizar.

domingo, 23 de abril de 2017

Confissão

Não vou me fingir de santa. Sinto raiva, tenho inveja, quero o mal. Tudo depende de quem, geralmente acompanhado de um porquê.
Luto conscientemente contra essas tendências, mas seria mentira se eu dissesse que esses sentimentos não me assolam.
Já me passaram muito a perna, já me maltrataram por mesquinharias. Se eu dissesse que amo todo mundo independente do que fez eu seria muito hipócrita.
Amo quem me dá razões para amar. Admiro quem é admirável. Quero o bem de quem estimo. Mas o mundo não é cor de rosa e eu não amo todo mundo, nem acho que todos mereçam.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O mundo não é e talvez nem queira ser coerente.
Tem gente que passa o dia no Facebook e fala que não teve oportunidade de estudar;
tem gente que tem tudo de mão beijada e fala que tudo se ganha por mérito...
Tem gente.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Poderíamos aprender a ver mais de dois lados opostos na política, na economia e mesmo nas relações humanas. Mas desonfio que as pessoas não têm interesse nisso. Afinal, pra quê ampliar horizontes quando eu posso passar a vida disputando com o lado oposto? Se a minha vida não tem tantos desafios, então, o binarismo é um campo extemamente interessante. Eu distorço a realidade em prol do meu argumento e acuso meu oponente de distorcê-la pelo seu. Não é divertido? Tentar enxergar a realidade com nuances que não se encaixam nessa oposição não parece trazer tanta emoção.