sábado, 12 de agosto de 2017

Briga de gangues

Mesmo morando na França por três anos, sempre mantive contato com o que as pessoas pensam e discutem no Brasil, especialmente pelo facebook. Alguns posts provocam boas reflexões, eu concordando ou não com a opinião que defendem. Uma boa parte deles, no entanto, dá um profundo desânimo com relação à maturidade do debate político. E antes que você diga “também, esses esquerdopatas”, ou “deve ser tudo coxinha”, saiba que é exatamente disso que eu estou falando.
Diante de qualquer coisa que se fale, a tendência é a mesma: acusar alguém, geralmente um partido ou tendência ideológica. Tem discursos rasos e preconceituosos, mas boa parte deles é bem lapidada, pensada, palavras escolhidas com cuidado pra dar mais credibilidade. Por trás de todos, a mesma coisa: “O que eu penso é certo e quem concorda comigo é legal. Quem pensa diferente é errado e deve ser humilhado.” Construir soluções coletivas parece coisa de outro mundo nesse contexto. 
Mesmo quando as pessoas compartilham um sentimento comum com relação a algo, fazem associações que garantam que elas sejam classificadas sempre no mesmo grupo. Por exemplo: a difundida rejeição ao Temer. Um grupo o associa ao PT, outro ao golpe contra o PT. Como ele é uma figura dúbia, fica fácil rejeitá-lo e manter-se fiel ao próprio rótulo, mas com relação a outros assuntos menos flexíveis gasta-se uma energia absurda pra manter a dualidade. Ora é necessário fazer associações não tão fáceis, ora justificar o que o próprio grupo faz de errado e apontar o dedo sobre o outro. Em todo caso, uma vez instalada, essa chave de pensamento permeia a leitura de tudo, que às vezes nem é sobre política. É uma constante afirmação de identidade no combate a outra, que não pode jamais ser traída – afinal, o quanto humilhamos quem tem a outra identidade, não é mesmo?
Senti que ao longo dos anos aumentou a quantidade de gente que olha para os fatos em vez de simplesmente transformar uma opinião em verdade. Ainda assim, o olhar sobre os fatos é distorcido. Antes de ter opinião sobre qualquer acontecimento, a pessoa confere quem está envolvido. Se é A, é horrível; se é B, deve ter uma boa explicação. Pra dizer se a economia vai bem ou mal, escolhe-se os indicadores que confirmam o que se achava antes de ver qualquer número.  Pra julgar se uma reforma é positiva ou negativa, não importam experiências passadas ou de outros países, importa apenas quem propôs. Se é de alguém do meu agrado, vai dar certo; se é de quem eu não gosto, vai ser um desastre. Os mais cautelosos até leem o projeto – e pinçam aquilo que sustenta seu ponto de vista, distorcendo e interpretando mal o texto, por mais que em outros contextos sejam bons leitores.
Eu discordo de estereótipos que colocam tudo na Europa como superior e tudo no Brasil como coisa de vira-latas, mas nesse ponto a comparação é inevitável. O que notamos aqui é que, apesar de existirem tendências ideológicas e partidárias, a linha de discurso socialmente aceitável é bem diferente. Nem todo mundo é tão ponderado, assim com nem todo mundo no Brasil é tão enviesado, mas não dá pra ignorar que existe um tipo de discurso que define o tom do debate e cria uma zona de conforto para que as pessoas continuem reproduzindo a mesma fala. O sentimento de desajuste não se dá por não deixar claro de que gangue se faz parte. Uma das coisas que mais vi criticarem nas conversas de grupo que tivemos foi justamente a incapacidade de criticar o próprio grupo. Apoiar alguém incondicionalmente é sinal de burrice. Se você realmente se importa com o que o seu grupo faz, você tem que ser capaz de identificar problemas e apontá-los, pra que corrijam.
É claro que criticam também os outros grupos, mas tem que ser objetivo e jamais deixar de acreditar que o seu grupo também tem problemas a serem corrigidos. Isso quebra essa coisa de “nós os perfeitos x eles os burros” que ilude tanta gente no Brasil. Nessa chave de pensamento, informação é uma coisa que tem que ser analisada e debatida, não apenas usada pra enfeitar ou sujar nomes. A partir do entendimento e mesmo do posicionamento ideológico com relação a um assunto, discute-se quão bom ou ruim é o que está sendo proposto a respeito, não a partir de quem propôs.
Mas confesso que não conversamos tão frequentemente com as pessoas a respeito de política. Nossa maior referência do modo de pensar coletivo é a mídia, que vemos todo dia e, honestamente, parece seguir a mesma linha de discurso das conversas cara a cara. Não é de se estranhar, dado que muita gente ajusta a própria chave de argumentação a partir das notícias. Comparando a mídia / internet dos dois países, as diferenças são bem evidentes. Uma comparação simplificada: 
Debate sobre educação na França: revisão da carga horária.
Debate sobre educação no Brasil: como o partido X quebrou a educação.
Debate sobre economia na França: vantagens e desvantagens da União Europeia.
Debate sobre economia no Brasil: como o partido Y quebrou a economia.
Debate sobre eleições na França: propostas de combate ao desemprego.
Debate sobre eleições no Brasil: quem vota em fulano é burro. 
Existem diferentes níveis intelectuais de discurso, mas o fundo é o mesmo. A mensagem que se quer passar, com gifs ou textões, é a mesma. Passa longe de cutucar a natureza dos problemas – eles são apenas suporte para que se cutuque a reputação de alguém.
Tenho a impressão de que a população brasileira está muito distante de conquistar um papel no rumo do país, pois mesmo as manifestações mais massivas são por (ou principalmente contra) times, não para que as coisas melhorem. É quase unânime a opinião de que todos os grandes partidos são corruptos, e ainda assim eles têm legiões de defensores que nada ganham com isso. É sempre “todos são corruptos, mas nada se compara a… [coloque aqui a legenda que você tem como demoníaca]”.
Durante as eleições na França teve gente que rejeitou partidos, mas isso vem acompanhado de argumentos. Mais do que isso, o posicionamento pode mudar! Não existe um compromisso em defender sempre o mesmo grupo se esse grupo não faz por merecer. Nenhuma legenda é sagrada, nenhum partido é a representação do demônio na Terra. No Brasil, isso beira à superstição, como se fosse pecado enxergar algo de bom em um partido que eu concluí que é ruim, como se fosse fraqueza ver algo de ruim em quem eu defendo.
Quando Manuel Vals passou à força uma medida que feria os princípios da base eleitoral dele, ele perdeu a base. Não conseguiu nem ganhar as primárias para disputar as eleições. No Brasil, teria sempre um grupo disposto a amenizar o que ele fez, ou ao menos tentar tirar o foco dele, arrumando motivos para que olhassem para os defeitos de outro candidato, comparando, vendo quem é mais podre. Quando denunciou-se que François Fillon deu cargos à própria família sem que eles trabalhassem, canais de diferentes tendências expuseram o caso, acompanharam a investigação, ouviram os dois lados da questão e, sinceramente, não os percebi encobrindo o que aconteceu. Foram até na cidade do sujeito, falar com quem sempre o apoiou e – pasmem – pessoas que gostavam dele achavam que ele tinha que ser punido!
No Brasil, temos políticos completamente blindados pela mídia, que nunca têm seus nomes em manchetes de jornal, mesmo que sejam investigados e condenados. Outros ganham destaque ao menor sinal de acusação, e na falta delas, fabrica-se. Os jornalistas tomam partido do início ao fim das matérias. A notícia vira sessão de rechaço contra um grupo ou de justificação do que outro faz. Revistas endemonizam e endeusam pessoas, redes de televisão tocam música dramática para apresentar informações distorcidas. E o público faz a mesma coisa nas suas pequenas mídias. Não tem nem sutileza na escolha de quem favorecer ou prejudicar, e todo mundo percebe isso – no grupo de que não gostam, pois quando é no próprio, jogam debaixo do tapete.
Diante disso dá vontade de manter-se a milhares de quilômetros de distância, mas a verdade é morar longe não faz com que deixemos de ser brasileiros e de nos importar com o país. Nunca deixou de me dar tristeza ver como as coisas são feitas, mesmo quando achei que poderia morar aqui pro resto da vida. As pessoas que eu amo estão no Brasil, eu me identifico com os brasileiros, voltarei a morar no Brasil e gostaria muito que o país amadurecesse. 
Aí você me diz: mas se eu sair da briga, eu perco. Se eu não fizer o que eu estou fazendo, o outro grupo ganha. Verdade. Se você quiser dedicar a sua vida a tentar ganhar essa briga, não pode sair dela. A pergunta que eu coloco é: quem vai ganhar isso? Será que alguém do outro grupo vai um dia acreditar em alguma coisa do que você diz, sendo que você tem os mesmos vícios? Será que um dia vão acordar e dizer “Nossa, é mesmo! Você distorceu fatos, omitiu eventos, exagerou nas coisas que dizia sobre mim, mas na verdade só estava querendo salvar o país! Agora eu entendo!”
É óbvio que não. A não ser que exista um compromisso em analisar criticamente tudo o que é apresentado, independente da tendência ideológica, não há credibilidade à vista.  A não ser que se desconstrua discursos viciados e se tente construir debates bem fundamentados, vai ser argumento ruim contra argumento ruim, não levando a nada além de momentos de raiva e euforia.
Analisar as coisas com atenção dá trabalho. Exige consultar sites oficiais e ler informações a despeito do que a mídia apresenta como análise, porque ela é a mais viciada de todas. Exige questionar, ser chato e persistir a despeito da quantidade de vezes que não der em nada. Não tem tempo ou cabeça pra fazer isso com relação a tudo? Escolhe algo que lhe seja caro, algo que lhe motive a dar a devida atenção, a ter compromisso com a verdade. Vale muito mais a pena focar em um assunto e discutir direito do que posar de gênio sobre todo tipo de tema sem mudar nada.
Tem quem tenha questionado o movimento passe livre quando fizeram grandes manifestações contra o aumento do preço da passagem, dizendo que era “só por 20 centavos”. A verdade é que esse grupo vinha trabalhando há anos a questão do direito ao transporte, com um longo e cansativo trabalho de formiguinha e, por questões que se aproximam mais de contexto do que de poder, teve nessas manifestações um ponto alto. Esse é o tipo de militância que eu respeito: defender uma causa profunda e persistentemente, independente dos partidos envolvidos. Infelizmente, o que veio na carona das manifestações foi uma explosão de opiniões mal fundamentadas pra defender times. Essa é uma das coisas a despeito das quais os reais militantes continuam lutando.
Na briga de gangues os assuntos restam mal analisados, mal trabalhados e abandonados a quem redigir e apresentar um projeto qualquer. A massa pega o projeto, destrincha o que pode ser usado pra brigar e segue batendo boca enquanto as coisas continuam sendo decididas apesar dela. Pergunto: qual é a importância de ganhar essa briga? Qual é a importância de se identificar com uma corrente ideológica sem trabalhar para que pelo menos um dos princípios que a definem seja transformado em política pública? Qual é o sentido de ganhar dezenas de discussões de facebook e deixar que o dinheiro público seja mal usado, às vezes na própria empresa em que se trabalha?

Tenho profundo respeito por associações e movimentos que têm um foco e uma luta. Eu mesma não posso me vangloriar da minha trajetória particular. Sempre estive mais concentrada nas minhas questões particulares, por mais que leia planos de governo, cobre vereadores e encha o saco da administração municipal (de qualquer partido) pra que faça o seu trabalho. Democracia e inclusão são duas questões que me são caras, e eu já fiz contato com candidatos de partidos antagônicos em nome delas. Não tenho problema nenhum em elogiar ou criticar nenhum deles, porque meu compromisso é com meus ideais, não com nomes, e espero que meus amigos sejam capazes de me criticar com base em ideias, não em rótulos. Mas se vier querer discutir comigo que partido X ou Y é deus ou diabo, não perca seu tempo, sou ateia.   

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